13 junho 2014
10 junho 2014
Boleia? Não... tenho pressa!
Leio uma matéria na Agência Cabo-verdiana de Notícias, INFORPRESS, intitulada "Porto Novo: Acesso Tarrafal - Monte Trigo representa riscos para os turistas – operadores turísticos"
O artigo vem ilustrado com a foto acima. (digo que é apenas ilustração). Mas, depressa dou duas voltas à mente e revisito a primeira (até agora única) vez que visitei Tarrafal de Monte Trigo, decorria o ano 2000. Já se passaram 14 (!) anos.
Foi num passeio de fim de ano lectivo. A viagem de Porto Novo até Tarrafal de Monte Trigo foi uma aventura. A paisagem lunar dos campos do interior de Porto Novo me deixava intrigado. Na altura, com os meus 17 anos todos passados no meu verdejante vale da Ribeira da Torre, nunca imaginava que a Ilha do vale do Paul e das outras ribeiras verdinhas pudesse, ao mesmo tempo, ostentar uma paisagem tão inóspita.
Mas, o que mais me impressionava era a estrada, a vereda aliás.
Fomos numa dessas viaturas que na ILHA chamamos Dina (Galucho em Santiago). Cada metro percorrido era um desafio. Muitas vezes o carro era obrigado a parar, os ocupantes desciam, tiravam pedras, enchiam buracos para que a maquina pudesse passar. E foi nessa odisseia de pára-arranca e desce-sobe que acabámos por chegar ao destino, cerca de 4 horas depois de ter deixado Porto Novo.
Lembro-me que, já bem perto do Tarrafal, na selada a partir de onde se avista a comunidade, um pequeno grupo que já conhecia a região decidiu descer do carro e "cortar a rocha" a pé até à comunidade. Nós que preferimos ficar no carro, quando chegamos encontrámos o tal grupo sentado, relaxado a comer mangas. Desatei-me a rir porque de imediato lembrei-me de uma famosa anedota, que se conta lá na ILHA:
Um fulano vinha da Ponta do Sol para Ribeira Grande quando o condutor de um famoso Bedford da época resolve parar e oferecer uma boleia ao pobre desgraçado que estava a fazer a travessia à pé. O Bedford estava velhinho e o condutor tinha fama de pé leve (acelerar não era com ele).
"Ó irmon, sbi no bé" - diz, cheio de boa vontade, o motorista.
"uábéeek..." - hesita o caminheiro para depois completar:
-"ubrigada pe boleia, ma como um tem pressa, te fká pe ot dia"
"Ó irmon, sbi no bé" - diz, cheio de boa vontade, o motorista.
"uábéeek..." - hesita o caminheiro para depois completar:
-"ubrigada pe boleia, ma como um tem pressa, te fká pe ot dia"
Pirraças à parte... hoje, passados 14 anos desde que fiz a aventura Porto Novo - Tarrafal, parece que a "vereda rodoviária" que liga as duas zonas não sofreu grandes melhorias. No caso de Monte Trigo, nunca cheguei a fazer esse trajecto, mas sei que a "estrada" que liga Tarrafal e Monte Trigo é bem melhor porque não tem pedregulhos, nem buracos, mas tem ondas, vagas, balanços... e gente te dá pêxe cmida. Isso para quem vai de bote. Por terra (e é aqui que está a razão do alerta dos operadores) é pê no txôn até txgá!
Caso para dizer que por aquelas bandas o famoso fulano que negou a boleia no trajecto Ponta do Sol-Ribeira Grande não daria tal resposta porque, simplesmente, não teria essa opção.
Caso para dizer que por aquelas bandas o famoso fulano que negou a boleia no trajecto Ponta do Sol-Ribeira Grande não daria tal resposta porque, simplesmente, não teria essa opção.
27 maio 2014
24 maio 2014
A Grandeza de Honório Chantre
Cresci ouvindo a minha mãe a falar, com muito respeito e orgulho, do tio Honório Chantre. Quando a mãe nos falava dele notava-se que havia muuuito respeito na forma com fazia referência a este Homem. Dizia-nos que tinha combatido pela Pátria e que depois tinha sido ministro na 1ª República. Os anos foram passando. Com o seu regresso à Santo Antão, creio que em finais da década de 90, pude conhecer pessoalmente o esse tal homem barbudo que via nas fotografias e filmagens dos arquivos da TV. Só que ja não carregava aquela barba própria dos revolucionários. Nunca chegámos a travar grandes conversas, talvez porque quando regressou à ILHA eu ainda era um moço imberbe, de pés descalços, sem jeito para "aguentar" uma conversa com um homem tão ilustre. Nos primeiros anos da década de 2000, a minha irmã esteve morado alguns anos, à renda, na sua casa lá em Lugar de Guene, e mesmo estando ele no mesmo edifício, eu nunca pude bater à sua porta e travar uma longa conversa com ele, mas por culpa minha, por causa da "canela que me faltava" na altura. Depois ausentei-me da ilha para estudar e não mais tive oportunidade de o encontrar pessoalmente para travarmos as conversas que antes não tinha coragem, nem barbas, para lhe pedir.
De vez enquanto vamos trocando umas palavras pela Internet, mas agora o que quero mesmo é conversar pessoalmente com este Homem muito discreto que, como muitos outros cabo-verdianos, como muitos outros santantonenses, deram tudo pela nossa causa.
Tudo isto à propósito do artigo do A Nação desta semana.
20 março 2014
ORGULHO DE NHE R'BÊRA
Fiquei muito orgulhoso quando, há dias, dando cobertura ao encontro entre o Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, e o seu homólogo do Senegal, Macky Sall, nas Instalações provisórias da Presidência da República de Cabo Verde, deparei-me com um enorme quadro onde o motivo da pintura é nada menos que o meu Vale da Ribeira da Torre.
Obrigado caro colega e patrício Ricardino Pedro que de pronto feze'm exe foto, porque na hora um tava desprevnid de câmara.
Recordando Nhô Kzik
A 18 de Março de 1911 nascia na localidade de
Corvo (Santo Antão) o violinista conhecido por Nho KZIK, um dos melhores
violinistas deste país que faleceu a 01 Dezembro 2005.
Deixo aqui a efeméride comentada pelo colega jornalista António Silva Roque, da Rádio de Cabo Verde.
Natural
da localidade de Corvo Santo Antão Nho Kzik sustentou a família durante os seus
94 anos de vida com pedreiro e barbeiro no concelho que o viu nascer. Mas a sua
notoriedade veio através da música. Pedreiro durante o dia com a sua marreta e
a noite essa marreta transformava-se em violino reza assim a lenda
Em 2005,
a morte ceifou-o do nosso convívio, restando a consolação de escutar as suas
composições no disco “Recordação”, o único da sua carreira.
Fazendo
retrospectiva da sua vida consta que aos 20 anos, após várias experiencias
tornou-se pedreiro.
Com
mérito próprio conseguiu fazer ouvir a sua música em outros palcos nacionais
(Festival Baía das Gatas 1997, Festival Sete Sóis Sete Luas 1998, cidade da
Praia) e internacionais (Expo Lisboa 98). Gravou um único CD mas de elevada
qualidade estética, um registo que fica para posteridade.
Nho Kzik fica na história como homem
que soube interpretar a nossa psicologia colectiva através do seu violino.
Morreu e deixou a obra para o deleite de todos nós.
Veja a pereformance do Nhô Kzik aqui: https://www.youtube.com/watch?v=QXnVVWkbKHU
09 novembro 2013
ESPLANADA NOVA AURORA:- QUEM TE VIU....
Até meados da década de 2000, era o ponto de referência da Cidade da Ponta do Sol. Era o coração da então vila. A Esplanada Nova Aurora funcionava como o epicentro das noites então movimentadas da Ponta do Sol. Aos fins-de-semana, à noite, era uma dor de cabeça encontrar um lugar vago para se sentar com um colega para dôs déde de conversa, cmê um batata frita ou bibê um cosa qualquer.
Hoje, está lá, moribunda, quase abandonada, a viver só das recordações de outrora. Neste permanente estado de saudosismo, a Esplanada tem como confidente a bela Praça que fica mesmo a sua frente. As duas vão partilhando as alegrias proporcionadas pelo intenso movimento dos jovens e menos jovens: do ir e vir na praça num interminável giro (o tal "fazê grogue"); dos encontros e desencontros de namorados, das piadas, da fresca brisa do mar ali bem perto, do friozinho irritante de Dezembro-Janeiro-Fevereiro, enfim... recordações de um tempo recente, que até já parece longínquo!
30 outubro 2013
Fêdogósa, Cnéfista, Non-me-toques... cadê vocês!!!????
O Decreto-Parlamentar nº 7/2013, publicado no BO nº 23, I Série de 09 de Maio de 2013, aprova a Delimitação do Parque Natural de Cova, Ribeira de Paúl e Ribeira da Torre, Santo Antão, pertencente à Rede Nacional das Áreas Protegidas.
O Decreto expõe os motivos que estiveram na base da declaração de Cova, Ribeira de Paul e Ribeira da Torre como áreas protegidas, na categoria de Parque Natural, justificando que é "uma das áreas com a maior concentração de espécies endémicas de São Vicente" (no BO há uma gralha imperdoável, escreve-se São Vicente, em vez de Santo Antão).
Ainda, da leitura do texto do Decreto, fica-se a saber que, das espécies inventariadas na área supra-citada, 36 são endémicas e representam 76% das espécies encontradas em Santo Antão. Até aqui tudo normal. O que me preocupa é saber que 44% dessas espécies endémicas estão na lista vermelha de Santo Antão e 59% na lista vermelha do Arquipélago.
Pois bem, ao ler este dado, pus-me a pensar: Realmente, quantas espécies vegetais com as quais convivia diariamente na minha infância lá na ILHA, e que há muito tempo não vi sequer um exemplar????
São os casos de:
- Fêdogósa - uma plantinha méfe pô fronta, um mondinha mesmo chato (mas onde k'ess pléntinha bé???)
- Cnéfista - outra plantinha méfe, mas bonitinha! E(ra) bastante estimada pelos velhos da Ilha que viam/vêem nela muitas propriedades medicinais (diazá mi'n oiá um pé de Cnéfista)
- Palha-Teixeira - ao longo do leito da Ribeira das ribeiras da ILHA esta plantinha nascia aos montes. Ao contrário das duas anteriores, esta é bem cheirosa e dá um chá bem coradinho e muito bom para diversas enfermidades (o k é feito de bo, Palha Teixeira?)
- Tribinha - outrora nascia aos montes, sobretudo ao pé dos socalcos (pê de pêrede). Era tido como rêmêd sónt para dor de dentes, as folhinhas têm um gostinho salgado. Hoje é raro ver um pé de Tribinha
- Non-me-toques - a planta mais curiosa que alguma vez conheci. Deve ser dos mais estranhos do mundo. O seu nome deriva-se do facto de não suportar qualquer toque, por mais leve que seja. Basta tocar nas suas folhinhas para que a planta murche num instante. Quando era menino havia alguns exemplares na casa da minha avó, e nós divertíamos imenso a "gozar" com o Non-me-toques. dávamos o toque, a planta murcha de imediato, ficávamos a espera durante uns 10 minutos, até que voltasse a recompor-se para de novo darmos o golpe. Passados uns anos nunca mais vi qualquer exemplar desta planta incrível
Enfim, eu poderia enumerar aqui muitas outras espécies com as quais outrora convivíamos diariamente la na Ilha e que hoje tornaram-se raríssimas ou desapareceram mesmo.
Obs: os nomes das plantas apresentadas aqui são tal qual nós as chamamos ou chamávamos lá na ILHA. Não tive qualquer preocupação em trazer a verdadeira designação ou nome científico.
15 outubro 2013
VIAGENS NA MINHA ILHA: RUA COR DE ROSA
| Rua Cor de Rosa @ Benvindo Neves |
Rua Cor-de-Rosa (caramba, porque cor de rosa!!!??) é, sem dúvida, uma das ruas mais emblemáticas da Ponta do Sol. Outrora, dizem, foi muito importante, quase que o centro daquela vila (cidade): Hoje perdeu protagonismo.
Mas, a rua pode gabar-se de reviver seus tempos áureos: serviu de cenário no mais recente telefilme do agrupamento teatral Juventude Em Marcha, "Órfãos de Penedo" O Telefilme foi rodado em diferentes pontos da Ilha (Ribeira da Torre, Cidade das Pombas (Paul), Ponta do Sol...). Nas cenas da Ponta do Sol é na Rua Cor de Rosa que se desenrola boa parte das cenas (Rua Cor de Rosa, Cais de Boca de Pistola, Escola do Ensino Básico Integrado). É na Rua Cor de Rosa que Nhe Sébine, uma das personagens, te dá kel grito "ó poooooooove!"
Vale a pena ver mais esta produção do Juventude em Marcha. Antone de Luce ou Jôn Nervose (ups, gent e'n de insultá gent), é mais uma grande personagem encarnada pelo Grande actor César Lélis.
24 setembro 2013
NHANA - Contos e Factos
A LARGADA
Este episódio revela um dos acontecimentos mais fatídicos na vida de Nhana: partiu uma perna (a rótula) com um balaio de goiaba à cabeça. Na altura, ainda o filho primogénito nem tinha completado 2 anos. O acidente marcaria, para sempre, a vida desta mulher.
"Andei um dia intêr em cima de um exército de
homens incontáveis. Julguei, verdederêmente, que eram homens filhos de Deus que
me transportavam"
M
|
ariana estava mesmo decidida: Iria deixar Cómp de Porto e
ninguém conseguia destituí-la da sua determinação em mudar de ares. Nem mesmo
os conselhos da madrinha que a deu gozói enquanto aguardava o dia da largada a
fez mudar de ideias. Não se pode garantir que ela tenha exitado após as advertências da sua madrinha, mas quem visse Mariana nos três dias que
antecederam a partida notaria que a face estava muito carregada e que talvez
andasse muito pensativa. Ou teria arrependido da sua decisão algo pouco
provável já que a mulher era daquelas que quando cismava com uma coisa não
mudava nem que lume nó polpa. Ou então teria ficado abalada com o sermão da
madrinha, mulher boazinha, muito respeitada nas redondezas. Esta hipótese seria
a mais provável, uma vez que teria mexido com os preceitos morais e convicções
religiosas de Mariana, criatura extremamente devota e que seguia (bem, pelo
menos tentava) à risca os ensinamentos da “Santa Igreja Católica Romana”.
Ademais, Mariana via na sua madrinha uma segunda mãe, a quem não convinha
desobedecer, mesmo porque acreditava piamente na máxima ditada pela sua fé
cristã e propalada por toda a comunidade: “conselho dód desprezód é meldiçon de
Caím”. A isso, Mariana juntava o dito popular, não menos respeitado, segundo o
qual “palavra de madrinha é sogród e sel vrá praga el te pegá que nem pegá-saia
ne ropa d’elgudon”.
Como se pode notar, Mariana estava perante um dilema
muito delicado, porquanto entrava pelo meio questões sagradas passíveis de entrar
em choque com a sua devoção.
Mas haveria coisa mais sagrada em Mariana do que manter a
palavra? Ulalá! Em nome da sua palavra, Santa Palavra, ela iria mesmo partir.
Ainda faltava um dia para a retirada, mas as bujigangas já estavam todas bem
preparadas.
“Filha, emnhâ bo ti té bé sempre, nem? Apôs, Deus te bé
bo diente e bo trés, Ele te lem'nhób tud pósse que bô dá, quê bo séb, Kênder de
Noss’Nhôr e’n de pagá nunca!” Essas palavras da Madrinha trouxeram muito ânimo
à afilhada e os olhos dela brilharam que nem um candeeiro com tercida nova.
“Ma e’n nê pe esquecê um cosa” – prosseguiu a madrinha –
“mésm sêbendo que quel kênder de Noss’Nhôr e’n de pagá com nenhum vento, mundo
é chei de estéférme e Sténés te andá te espiá ondê impessê.” Esta ressalva fez com que os olhos da
afilhada agora minguassem um pouco, como se aquele candeeiro, qu’en de pagá
nunca, tivesse prestes a secá pitrôl.
Mas para frente é que está o caminho. O dia ainda estava
a começar e a partida era só amanhâ, o tal Sábado. Por isso, até lá, a vida
continuava normalmente. Mariana, que era uma mulher com especial apetência para
negócios tinha a sua espera uma balaio de goiaba que iria vender em Porto
Carvoeiros. O produto tinha sido colhido no dia anterior por uma senhora
amiga da madrinha e até então permanecera numa tarimba à espera de destino.
Mariana, depressa se prontificou em ir vender “aquela fartura”, quanto mais não
fosse para, antes de partir, mostrar um gesto de gratidão à mulher que a havia
amparado.
E partiu em direcção à Porto Carvoeiros. De alberca nos pés,
porque o caminho era longo e a terra do deserto assava a planta dos pés,
avental na cintura para ajuntar os tostões que fosse amealhando, lenço na
cabeça e redia para assentar o enorme
balaio em formato cilindrico e que quase transbordava de goiaba.
Já passavam das 7 horas. Mariana pede que a madrinha a
ajude a aportar a pesada carga, despede-se e parte pachorrenta. “Deus te
cumpónhob, filha” - acenou a madrinha. E
de facto, era preciso que o Senhor a acompanhasse a cada pisar e levantar dos
pés. Até chegar ao destino, a vendedeira teria que percorrer mais de 20
kilómetros, por entre veredas que atravessavam ribeiras e ladeiras. Mas nada
que a intimidasse, porquanto era usual Mariana fazer essa maratona de balaio à
cabeça juntamente com as companheiras de negócio que sempre diziam: “prima
Mariana que é nossa guia.” Entretanto, nesse dia tinha ido sozinha.
E mal tinha percorrido uns 4 quillómetros acontece o que
menos se esperaria. Mariana, que ia a uma velocidade media (o peso da carga não
a permitia apertar muito o pé no acelerador) escarrila e cai de forma
encolhida. O peso do corpo e do balaio caem-lhe em cima. Mariana fica com a
perna direita dobrada por baixo do corpo e uma dor insuportável a invade. A
viajante tem a rótula partida. O despiste aconteceu quando se livrava de uma platcha de bosta de burro que inundava o
caminho. “Já’l dá um cunclut, ja’l esclirrá, é quem quel? É Mariana de Jon
Mértim” – ouvia-se ao fundo umas vozes.
Depressa vem assistência. Uma selhora, duas crianças e um homem robusto
chegam ao local. Mariana contorce, as dores são insuportáveis. Com o joelho
partido, a perna direita está bléngue. Enquanto os adultos fazem-lhe esfrecson,
as duas crianças juntam as goiabas que ficaram espalhadas pela ladeira. Estão
todas cheias de terra. Umas, depois de lavadas, ainda servem. Outras,
completamente plótchód, só servirão pa dá tchuc pe cmê.
Mas o mais importante agora é a saúde da Mariana. “Pondê
no te level? Pe Carvoeiros ? Não, prêquê, pralá e’n den doctor. No levél pe
Jontbent, ê remêd de terra que ti te bé curél.”
Mariana, mesmo a contorcer com dores, deu ordens para que
a levassem para a casa da madrinha, de onde havia partido momentos antes. O
regresso à casa era feito agora às costas, coisa que a rija mulher certamente
só a fizeram quando ainda era bebé.
Depois de enfrentar algumas dificuldades (dificuldades
previsíveis e inerentes à uma tarefa tão delicada como a de carregar no lombo
uma pessoa com uma rótula partida) Manuelzinho, que de diminuitivo apenas tinha
o nome, chegava à casa da madrinha com a mulher às costas.
Ao ver a afilhada naquele estado, a madrinha ficou
inconsolada e pos-se a chorar. No meio das dores, Mariana ia dando ordens para
que a aliviassem o sofrimento com um
pano de algodão embebido em água morna e salgada. Enquanto isso,
Manuelzinho reunia leite de bombandeira para esfregá-la naquela junta desjuntada ... enfim cada um era médico a sua maneira e
prescrevia ou socorria dos melhores medicamentos de que dispunha.
Mesmo no momento de dor, Mariana não deixou de ser
remungona e quase que esconjurou os presentes quando estes murmuravam que o
melhor para ela seria regressar à casa dos pais. “Aquêlê!!! Eu vou pra Ribeira,
mesmo que para isso tenha de viajar em padiola ou no lombo de um burro, que
seja!
E no dia seguinte, Mariana deixava Cómp de Porto. Não em
padiola, nem em lombo de burro, mas sim, em lombo de gente. Três homens,
escolhidos pela sua compleição física, carregaram a mulher às costas ao longo
de aproximadamente 66 kilómetros, numa maratona que durou 13 horas. Os três cavalheiros, um deles
era precisamente o Manuelzinho, iam descansando uns aos outros fazendo lembrar
a procissão de Nhô São João Baptista, em que diferentes fieis vão carregando, à
vez, a imagem do Santo.
Por volta das 10 da noite, os pobres homens chegavam ao
destino que era a casa de nho Manuel Martinho, imão da Mariana, situada em
Ladeirinha de Ribeirinha de Jorge. Esbofados, mas animados por terem
finalmente entregue a “carga”, as criaturas exigiram em troca um cálice de
grogue para secarem o suor. De seguida deitaram-se debaixo de um pé de fruta-pão,
mesmo em frente ao terreiro da casa, de
onde, antecipando o amanhecer do dia seguinte, partiram de novo rumo ao Cómp de
Porto.
Próximo
capitulo
Mariana revela alguns detalhes do namorico que manteve
com Antonim. Na relacao nao chegou a ter “malcrioçon”.
19 setembro 2013
18 setembro 2013
26 dezembro 2012
Nhe Rbêra na Tela
| Tôp de M'Randa visto de Tômbor (Pinhão) |
09 novembro 2012
CORVO E O ENCANTO DE UM RECANTO ISOLADO
Sempre que estou de
ferias na minha ilha não resisto em dar uma passadinha no Corvo, o tal lugarejo
que me encantou e pelo qual me apaixonei desde a primeira vez que visitei o
local, em 2001, levado por uma colega de turma do liceu, que me integrou numa
comitiva de jovens da igreja católica em trabalho social naquela comunidade.
Aquela antiga colega do Liceu Suzete Delgado hoje é minha mulher.
Confesso que sou um
apaixonado por lugares recônditos, onde não vão os carros. Não sei de onde veio
esta paixão meio invulgar, mas certo é que recantos desse tipo me fascinam. É
sempre uma delícia para os meus olhos verem a água cristalina a fluir
barulhenta por entre os inhames, poder ver os patos que fazem dos pequenos
lagos seus mundos, ouvir à noite o barulho dos sapos, e dos grilos, porque
ainda os há no corvo. As gentes do Corvo são muito acolhedoras, gente bonita e
alegre, de fino trato.
Corvo é um retiro....
Estar no corvo é poder ter um reencontro com aquele mundo que recordamos com saudades
e que costumamos dizer que já não existe. Aquele mundo da simplicidades e da
pureza, aquele mundo onde ainda se deita com as portas e janela abertas para se
poder desfrutar da brisa fresca que vem do mar ali bem pertinho. Corvo é
encravado, mas tirando a falta de estrada que acho que ninguém dá por isso, há
energia electrica 24 horas por dia, há telefone... Há muita água, doce e
salgada. De um lado retira-se da terra toda a casta de verdura e do lado de lá,
o peixe para completar a panela sempre ao lume. Corvo é um retiro, corvo é um
encanto. Sempre que lá vou e passo dois ou três dias, sei que no regresso à
azáfam do meu quotidiano conto com a garantia de mais uns aninhos de vida. Mas
não posso deixar de fazer referência ao caminho que nos leva até corvo. De ponta do sol, passando por fontainhas (até posso ir de carro mas a
"manha" de fotografar sempre me faz despensar as 4 rodas); depois de
fontainhas até corvo, obrigatoriamente à pé, é um fascínio indescritível. Amo a
minha ilha, caramba!
16 agosto 2012
Kérrin de Lata
Esta imagem fez-me recordar a minha infância em Santo Antão. Tempos de kérrin de lata, eram as nossas preciosidades, que não danificávamos por nada deste mundo. E até eram submetidos à rigorosos planos de manutenção, qualquer roda frôxe, qualuer orça duro, tud era cuidód ao mínimo pormenor, nós tínhamos os nossos próprios ITAC's, hhehehe.. Havia muito tempo que não via uma imagem como esta, deparei-me com este cenário algures na Cidade de Nova Sintra, na Brava e não resisti! Hoje, as lojas chinesas acabaram com tudo e as nossas crianças já não desenvolvem essa criatividade, são muito mais passivas. Na nossa infância lá na ILHA, todos nós tentávamos ter a nossa criação própria. Mas verdade seja dita, havia os gurus na materia, que aranjavam cada preciosismo!!! Lembro-me do Idelson que, por exemplo, colocava luz electrica nos carrinhos, com um sistema alimentado por caixas de pilha. Nhe irmon Rui também era um escrét n'assunt0, e era versátil: fazia além de carros, barquinhos, estatuetas de barro, tubarões de chifres, enfim
11 maio 2012
Péd K'Sórola
Ao encontrar no Facebook esta foto, publicada pelo Rui Neves, nhe broda, fui aos arquivos do Sinta10 resgatar um dos artigos dedicados às figuras da ILHA. Uma das edições era dedicada à Péd K'Sorola. Eis um update do post, agora com direito à foto do Péd.
Ribeirinha de Jorge, uma das zonas do
vale da Ribeira da Torre, é um lugarejo fértil em pirraças. Arrisco-me
até a dizer que deve ser das zonas da ilha com mais "figuras" por metro
quadrado. Péd K'sórola é um deles. Amante do seu kékin e do cancân, chegou a dizer um dia que iria dixar de beber ponche porque essa bebida tava estód te feze'l kustipód, (não é assim, Rui?)
Mas, não é disso que vou falar,
até porque cedo Péd pôde se aperceber de que não era esse derivado de
"água de cana" que lhe causava constipação, mas sim o uso excessivo.
Pois bem, Péd gosta das
telenovelas, mas como é muito crítico, vê cada episódio sempre a
comentar, o que as vezes irrita aqueles que estão por perto e que
normalmente tendem a ficar hipnotizados ao passar de cada cena. Certo
dia, Péd K'Sorola ouve o anúncio de que a próxima telenovela da noite na
Televisão Nacional passaria a ser "Anjo Mau". Na sua qualidade de
crítico, Péd ficou muito desiludido e, com cara de poucos amigos,
barafustou:
- "Anjo Mau?
Aaaanjo mau? Am porrra om, Bsot é mut palhaço, condê q'ónje foi móu??? Mi'n séb ukiê
que bsot tem ne kébeça! Antes era "Suave Veneno" (condê que veneno foi
suave??), agora é "Anjo Mau". Ammm, bsot é mut palhaço!!! mim kólker dia um te dtchá d'oiá exe perkéria, es ti te vrá mut levióne, te trocá rielidéd de cosa."
Bem, mim, nhó boca e'n esteprei, se bsot oiá algum ponto acrescentód, e'n nê mim! Nem sempre quem te contá um conto te acrescentá um ponto. kkkkk
04 maio 2012
Sodéd
| fotos: BCN |
As vezes dá-me vontade de deixar a cidade e ir morar numa casinha assim, lá na ilha. Sentir o cheiro da terra, o murmúrio das árvores a cantar ao sabor do vento, juntamente com os passarinhos... enfim, seguir uma vida de um simples lavrador.
Como diz aquela música popular brasileira "um caipira na cidade, se do sertão sentir saudade, perde o gosto de viver". Ainda hei-de voltar ás origens.
24 abril 2012
Encontro de Estudantes de Santo Antão, em Portugal
Adorei a iniciativa que alguns jovens da ILHA tiveram em Portugal. Promoveram no último fim-de-semana o "Primeiro Encontro de Estudantes de Santo Antão". É este tipo de pro-actividade que precisamos qpara que as nossas ilhas, regiões, comunidades... possam desenvolver-se.
Segue um olhar detalhado das incidências do Encontro, pela Articulista do A Semana, em Portugal, Otília Leitão. Confira aqui
Segue um olhar detalhado das incidências do Encontro, pela Articulista do A Semana, em Portugal, Otília Leitão. Confira aqui
27 março 2012
NHA ZIDORA
| Nha Zidora (Foto: BCN) |
Neste dia em que muito se fala da mulher cabo-verdiana, lembrei-me desta grande senhora, que muito fez para ajudar a minha mãe a criar uma caterva de filhos, hoje todos homens e mulheres feitos.
O peso da idade e das agruras por que passou nesta vida vai carcomendo-a pouco a pouco. Dela ouvi relatos da viagem e dos contratempos que ela e muitos outros conterrâneos passaram em São Tomé; dela ouvi contar episódios que muitos santantonenses, em plena década de fome, passaram, e da afronta que experimentou para chegar à Praia Formosa, à cata de alguns grãos de milho do barco que por lá encalhara.
Muito obrigado, Nha Zidora. És o retrato fiel da tenacidade da mulher cabo-verdiana, da mulher da ILHA.
15 março 2012
Sinais
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| Ponta do Sol com calçada antiga (Foto BCN) |
Estive a pensar, das cidades-vilas ou vilas-cidade que conheço neste país, (só não conheço Nova Sintra e Santa Maria), Ponta do Sol deve ser daquelas que menos sinais de trânsito tem. E não é, de certeza, daquelas com menos transito!
![]() |
| Foto (BCN) |
| Foto BCN |
13 março 2012
Adeus, Calú
| Varzinha (Foto BCN) |
A comunidade de Varzinha e Lombo de Pedrene, a Ribeira da Torre no geral, está triste com a morte precoce de Calú de Jorgina. Um jovem que perdeu a vida exactamente na estrada que há duas semanas era inaugurada, para o contentamento dos habitantes do vale, que agora se gabam de ter a primeira estrada asfaltada do concelho.
Sei que, quando alguém morre, o discurso tende a ser sempre o mesmo, mas certo é que guardo boas recordações do jovem. Não consigo deixar de pensar numas gargalhadas impressionantes que o Calú um dia dava insistentemente la ne club d'Montanha, perante algumas cenas de teatro dançante do meu irmão Jair. Ele era muito amigo da malta de Ribeirinha de Jorge e chegou mesmo a integrar a equipa da zona, Montanha. Estamos muito tristes. Vou lembrar sempre daquelas gargalhadas, soltas, despreocupadas, e infinitas naquela noitinha lá ne Fundo de Morés, Calú.02 março 2012
D'pôs d'Carnaval
Não sou propriamente um grande apreciador do Carnaval, mas confesso que fico maravilhado com os andores que se apresentam nos desfiles, nalguns lugares mais elaborados que outros, é certo, mas sempre reveladores de muito talento. Desde diazá que oiço falar na necessidade de se criar museus ou coisa parecida para preservar parte dos trabalhos (autênticas obras de arte) que se produzem por ocasião da festa do entrudo. Ouvi este ano o Ministro da Cultura a dizer, em São Nicolau, que talvez a melhor opção seja conservar alguns trabalhos em miniatura e guardar parte das peças (trajes, por exemplo).
Adorei aquilo que fizeram na Ponta do Sol, há poucos anos atrás. Recuperaram este andor, deram-no um tratamento especial e com muita imaginação colocara-no por cima da ilhota la na Prainha. O mergulhador deu uma grande style à Prainha, sim senhor, pa!
23 janeiro 2012
A Outra Face da Lei em imagens... e 2 plévrinha
| Cenas d'A Outra Face da Lei (Fotos: BCN) |
Não cheguei a encontrar os célebres tribunais populares, ou de zona, mas cresci a ouvir falar deles, e as vezes quando se referem à esses tribunais até fico com a sensação de ter convivido com eles. Histórias famosas ficaram associadas aos tribunais de zona, muitas com uma boa dose de anedotas, é certo. Desde aquele burro que, por devorar as plantações de uma horta de um fulano, foi condenado à prisão (quer dizer à estábulo) perpétua; passando por aquele cão que por ter mijado numa rua "proíbida" foi-lhe dado a sentença de não passar naquelas redondezas durante uns três meses. (aliás o juiz do tribunal popular da peça A Outra Face da Lei vangloria-se disso mesmo como tendo sido um dos seus feitos que mostram que ele não atura desaforos).
A Outra Face da Lei fez-me viajar pela minha ilha adentro (é impossível não fazer este exercício, inconsciente até, sempre que assisto á uma peça do Juventude em Marcha). Com o julgamento de Aníbal, por exemplo, lembrei-me daquele fulano lá de Lugar de Guene (contemporâneo dos meus irmãos mais velhos) que foi condenado lá no tribunal de nho Iszê M'guêl a uns dezenas de palmatórias por ter tród Nhô Móne um vento méf que ninguém tava podê suportá. (um buf, entende-se).
A peça apresentada este sábado (21 Janeiro) na Assembleia Nacional revela mais um trabalho de intensa pesquisa por parte do Juventude Em Marcha De todo o modo, penso que na parte final, os largos minutos de "terror" poderiam ser amainados. É certo que a intenção é boa, castigar duro para que depois haja redenção, mas para quem tem medo de gongon...
... ainda por cima agora que se volta a falar dos outrora famosos e temíveis "Monçongos"! Afinal, os "Monçongos", que já estavam em vias de extinção, parece que ressuscitaram (é, pelo menos, o que tem sugerido alguns jornais ca do burgo)
... ainda por cima agora que se volta a falar dos outrora famosos e temíveis "Monçongos"! Afinal, os "Monçongos", que já estavam em vias de extinção, parece que ressuscitaram (é, pelo menos, o que tem sugerido alguns jornais ca do burgo)
OBS: Há dias, numa entrevista à RCV Jorge Martins disse que o Juventude em Marcha deve ser chamado de Juventude em Marcha de Cabo Verde e não apenas de Santo Antão porque, segundo o actor, lá onde estiver, o grupo representa o país inteiro. Já bsót séb!
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