10 janeiro 2008

O combate à PDM

Aleluia, aleluia! O suspiro deve ter saído em uníssono e ecoado por todas as ribeiras, ladeiras seladas e cabeços da ilha. Os agricultores de Santo Antão vão poder, finalmente, comercializar seus produtos nas ilhas do Sal e Boa Vista, pondo fim a mais de vinte anos de quarentena por causa dos malditinhos milpés. Ahh, malditinhos não, são malditões! Imaginem, então, um bicho que resistiu mais de duas décadas à tudo e todos! Nem governos, nem governantes, nem presidentes, enfim nenhuma autoridade pôde, ao longo de todo esse tempo, arranjar forma de dominar o pirralho para assim poder levantar o embargo. Nem as antigas Milícias, nem as FARP, nem a POP e nem a PN conseguiu, ao longo de todos esses anos, barrar a passagem desses bichinhos na fronteira? Que força, hein!

Agora que somos PDM vamos, finalmente, conseguir criar um centro de expurgo para a PDM. Não se assuste, este 2º PDM refere-se à Praga Dos Milpés.

05 janeiro 2008

Mar de canal

Terminou as curtas férias de Natal e fim-de-ano na ilha. Como é doloroso o momento em que se entra no hiace para galgar as colinas rumo a Porto Novo - a agora única porta da ilha (porta por onde diariamente saem e entram centenas de pessoas)!

No dia 2 de Janeiro, ao ver as três embarcações que todos os dias fazem a ligação Santo Antão - São Vicente a se aproximarem, como que em fila indiana, do cais do Porto Novo, pus-me a pensar: - e se houvesse uma ponte a ligar as duas ilhas? Afinal, alguns dos desejos do António Ludjero Correia para Cabo Verde não são tão utópicos quanto possam parecer.
Só mesmo vendo a "ruanata" diária desses navios no canal, se pode ter a real consciência do quão importante seria tal ponte.

Afinal, como diz A. L. Correia "sonhar é preciso"

06 dezembro 2007

Paul, Casa do Escritor e... Oriente

O vale do Paul é tido como um dos lugares mais belos de Cabo Verde. Pela sua orografia, pela exuberância da sua vegetação... penso que se justifica em pleno este rótulo.
Paúl esconde encantos, belezas, um potencial turístico enorme. Paul tem história, tem (agri)cultura...Paul encanta, por isso muitos que por lá passam, cantam-no.
E não será, certamente, por acaso que o "berço de Januário" poderá vir a albergar a Casa do Escritor. A ideia já foi lançada e, aos seus promotores - Vera Duarte, e AMIPAUL - Sinta10 levanta um aplauso
e aproveita para propor uma viagem diferente ao concelho.


O Oriente no Paul

Ao reparar nesta foto me veio à memória a Grande Muralha da China. É certo que por esse caminho não chego a nenhuma muralha. Antes, esta vereda, que até parece transportar-nos para o além, leva-nos até algures em Santa Isabel, no concelho do Paul.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de associar esta imagem à majestosa Grande Muralha. Salvaguardando, claro, as proporções.

E, já agora...

que dizer deste exemplo de interculturalidade?

O autor da 1ª fotografia é a personagem que agora aparece nesta 2ª. De nacionalidade chinesa, Kayo esteve em missão no Paul durante cerca de 5 meses, ao serviço do Corpo da Paz. Mas não vou falar dela. Falo da foto, da riqueza expressiva que a mesma encerra.

A cobertura da casa, as paredes em pedra seca, a porta e a sua fechadura, a escada de pau e o sôrron faz-nos mergulhar num Santo Antão profundo. Ainda, num primeiro olhar este mergulho no profundo poderá ser bruscamente interrompido pelo “elemento estranho” – o chinês. Mas, um olhar mais demorado desvenda, em vez de um “ruído”, um exemplo de perfeita comunhão de povos, de integração onde eu te dou e tu me dás. Os chinelos que aparecem em cima da escada são um produto chinês, trazido pelos comerciantes. O nativo comprou-os usa-os no dia-a-dia. De tanto utilizá-los, teve que aplicá-los alguns pontos para aumentar a sua durabilidade. E é provável que tenha usado linha de cisal preparada a partir da planta que cresce nos cumes das montanhas da ilha.
Já, o sorron nas costas da chinesa é bem nosso. Só não sei se nessas costas o mesmo terá seguido viagem até ao oriente. Quem sabe!?

14 novembro 2007

PASSAGEM: SOS na primeira pessoa

"Chamo-me Passagem, sei que sou um ponto de passagem obrigatória para aqueles que visitam Santo Antão. Tenho piscina de água doce, águas cristalinas que correm por entre inhames e hortelãs, enfim tenho uma paisagem que, modéstia à parte, é espectacular.
Ao longo da minha vida já recebi centenas e mais centenas de caravanas que vêm passar um dia diferente, contemplando meus encantos. Já deixei maravilhado milhares de pessoas, locais e forasteiros.
Mas estou revoltado: é que já estive bem melhor. A minha piscina, meu ex libris, está feinha, meus canteiros já não têm ervas verdejantes. Porque será que estão e destratar-me desta forma, eu que já servi tanta gente, sem olhar a quem!!!"

Don't forget me, please! I'm (was) so nice!

04 novembro 2007

A Ordem do Dragoiro (coisas escondidas de Santo Antão II)

Continuo a reivindicar o direito de Santo Antão ser (também) considerada a ilha do dragoeiro. Quero ver os folhetos turísticos sobre a ilha dizendo que é (também) ilha que alberga essa planta milenar e endémica de Cabo Verde
Ainda espero ver na capa de uma revista tipo FRAGATA, numa edição sobre Santo Antão, uma grande fotografia do dragoeiro santantonese, essa planta tão simbólica... que, inclusive, dá nome a um tipo de condecoração, das mais prestigiantes de Cabo Verde.

Dragoeiros no Vale do Paul
Fotos: BCN

03 novembro 2007

À propósito de caminhada... (à ti, Paulino)

Ao ler aqui a descrição de uma caminhada pela ilha de Santiago, veio-me à memória uma caminhada que fiz no mês passado na ilha de Santo Antão. Itinerário: Cova – Vale do Paul. Peço-te licença, Paulino, para reformular a tua afirmação e dizer: “definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!”

Éramos três. Saímos de casa as 7 da manhã. De mochila às costas apanhámos uma viatura na vila da Ribeira Grande e rumámos ao Planalto Leste. São cerca de 30 minutos de carro, sempre a galgar montanha. A brisa fria e as gotículas de orvalho que nos batem no rosto fazem-nos antever um dia ideal para aventura - sem sol ardente. À medida que nos aproximamos da floresta do Planalto Leste, os rostos começam a franzir. Uma chuvinha miudinha, cada vez mais constante, deixa-nos receosos: “hum, parece que a chuva nos vai impedir a caminhada”. Mas não, ao aproximarmo-nos da Cova notámos que a chuvinha só se confinava à parte densa da Floresta. Descemos da viatura. Esta curva-se pra direita e prossegue a sua viagem rumo ao Porto Novo. Nós, voltando p'ra esquerda, começamos a descida rumo à Cova. Pelo caminho cruzamos com um conjunto de burros que, orientados por alguns garotos, cumprem mais um dia de tarefa rotineira: o transporte de água. Após admirar cada detalhe da paisagem daquela que é a cratera de um vulcão extinto, continuamos a nossa caminhada. Já estamos a subir o outro lado da Cova e daqui a pouco, quando chegarmos ao cume, conseguiremos ver o vale do Paul, lá em baixo.
Passam alguns minutos e… hups! Está o vale do Paul lá em baixo. Uma instantânea curtina de nuvem tapa-nos a visão (até parece que alguém está a fazer uma queimada rocha abaixo! Mas não, é “fumo” natural). Dez minutos de descanso, tempo suficiente para fazer um pequeno lanche. De onde estamos, de um lado vemos o interior da Cova - que já deixamos para trás - e do outro, o Vale do Paul – que nos aguarda. Estamos debaixo de um arbusto e de repente somos molhados por alguma gotas de água bem grossas. É chuva? Não, é que veio uma neblina e ao passar pela árvore gera água. Que maravilha!!!
Já são quase 10 horas. Vamos descer. O caminho é bom, embora algo inclinado. Cabo de Ribeira está à vista, ao fundo. Ouve-se murmúrios, sons de animais e de actividade humana. Vê-se canaviais, cafeeiros, bananeiras, macieiras… a descida está aprazível e agora muito raios de sol começam a despontar por entre nuvens errantes.
Atingimos 45 minutos a descer e estamos prestes a encontrar as primeiras casas. São os primeiros contactos com as gentes do Vale do Paúl. Agricultores a trabalharem a terra, água a correr por levadas, animais a pastar, cheira-se a terra molhada, à cinza de trapiche, à mel de cana, há tanques cheios de água... vamos dar um mergulho no Tanga (um dos maiores tanques da ilha). Estamos a descer vale abaixo, já deixamos o povoado de Cabo de Ribeira e o Tanga já está bem próximo. Chegámos! O tanque está cheio, parece um mar calmo. Alguns garotos vão dando seu mergulho. Apressamos a dar o nosso também. A água está fresquinha! Parámos uns 30 minutos e por altura da nossa retirada já havia muita gente no local.

A descida prossegue, estamos a atravessar a Passagem – um dos cartões de visita do Vale de Paúl, ou mesmo da ilha. Primeira desolação da caminhada: este outrora joia da ilha está em decadência, está abandonado… incompreensivelmente! A piscina está estorricada, parece que há muito tempo não viu água (entretanto um forte caudal passa na ribeira ao lado). Os canteiros onde antigamente havia ervas verdejantes estão desertos, só se vê terra, no entanto as flores selvagens das buganvilhas, estas persistem, talvez por não dependerem tanto do cuidado dos humanos. Bem, prosseguimos a caminhada pois Passagem não está tão atraente como antigamente. O próximo ponte de passagem é a cachoeira.
Já são 14 horas. Passando por canaviais, inhames e outras plantas caminhamos em direcção à cachoeira. A vegetação é densa. As correntes de água são constantes. Cachoeira está um paraíso! Deixamo-nos ficar por cerca de uma hora. Ao som do barulho das quedas de água, almoçamos. O Fefa e o Ady, dois caminhantes que encontramos pelo caminho quando subíamos a Cova, estavam connosco e convidamo-los a almoçar. Só que não havia pratos para eles. Que solução? Serviram o seu petisco em folhas de inhame. Imagine que comunhão perfeita com a Natureza!

Deixamos a cachoeira rumo à vila das Pombas, que é onde teríamos que apanhar o carro rumo ao ponto de partida – Ribeira Grande. Pelo caminho, muita vegetação, muita admiração, e ainda muita estrada por andar. Pudemos desfrutar da beleza de um dos recantos mais lindos do país; ver uma riqueza paissagística onde abunda cana de açúcar, bananeira, mangueira, papaeira, inhame, e até dragoeiro (essa tal planta endémica de Cabo Verde, que só existe em São Nicolau (?)) Mas também vimos mulheres a lavarem roupa nas águas que correm pelas ribeiras (imagem hoje em dia pouco comum); vimos meninos a saltarem, de cabeça, de grandes altitudes para depois murgulharem como peixe no fundo dos tanques (como o Groguinha lá no tanque de Marrador, Paulino; ouvimos o chirlear de pardais, sentimos o cheiro da terra fertil, enfim…

Chegámos à Vila das Pombas por volta das 5 da tarde… Era a segunda vez que fazia a mesma caminhada, mas foi mais uma descoberta, onde se voltou a respirar a Natureza, sentir o pulmão da ilha, viajar no tempo, viver a vida…

“Definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!"

27 outubro 2007

Sete maravilhas de Sintadez

Há dias lia num jornal da nossa praça uma proposta das sete maravilhas de Cabo Verde. Entre algumas para mim consensuais e outras muito discutíveis, lá já estava eu a fazer a minha lista. E, como não podia deixar de ser, elaborei a minha proposta das sete maravilhas de Sintadez. Ei-la:

1 - Vale do Paúl
2 - Cova
3 - Topo de Coroa
4 - Fontaínhas (incluindo sua via de acesso)
5 - Estrada Porto Novo - Ribeira Grande (com a floresta de Água ds Caldeiras e o Delgadinho)
6 - Ponto de canal
7 - Os montes de Ribeira da Torre (Topo de Miranda e Lombo de Pico)

Outras sugestões? Novo sete?

11 outubro 2007

Coisas escondidas de Santo Antão (I)

A ilha de Santo Antão é rica! Mas a sua riqueza está muitas vezes escondida, e só se ouve falar de montanhas, de mil pés (malditos bichinhos), de pobreza, de boa gente e pouco mais. Mas a ilha esconde um tesouro e quanto mais o conhecemos, mais há por descobrir. Assim, o Sint10, cumprindo a sua missão, reinicia esta semana com mais uma serie de pequenos artigos sobre aspectos menos conhecidos da ilha. E hoje, este post é sobre o café de Santo Antão.

Á semelhança da ilha do Fogo, Santo Antão produz o seu quinhão de café. Embora sem a expressividade da ilha do vulcão, Santo Antão pode gabar-se de poder beber café produzido no seu próprio torrão; gabar-se de também poder cultivar um dos produtos mais apetecidos em todo o mundo. As regiões altas de Lombo Branco, Pinhão, Monte Joana, Matinho de Leste (concelho da Ribeira Grande) e outras tantas no concelho do Paúl foram outrora locais de grande produção do café, sendo que ainda hoje se cultiva este produto, embora de forma menos intensa. Quem caminhar pelas entranhas de Monte Joana, Ribeirão Grande, Cidereira e outros locais do Planalto Leste encontrará ainda os famosos lédris (grandes espaços cercados por altos muros de pedra seca, onde se fazia a secagem do café). Hoje, muitos desses espaços encontram-se abandonados em ruínas ou então são usados como estábulos para animais. Mas quem ainda hoje quiser conhecer uma extensa plantação de café na ilha, aconselho-o a caminhar até Róiód, um pequeno vale, muito interessante, situado na parte mais alta de Pinhão (no cabeço). Com uma orografia que faz lembrar a famosa Cova, Róiód ainda conserva milhares de pés de café, e alguns casebres em ruinas. Vale a pena visitar o lugarejo, sobretudo se for na época das chuvas. Mas atenção, a que ter canela pa escanelá à pé.



"Crú doce, czid morgozo" (adivinha popular alusiva ao café)

Cafeeiros em Santo Antão
Cabo de Ribeira, Paúl
Fotos: BCN (Set. 2007)





04 setembro 2007

Sinta10 - o porquê do nome

Há dias alguém perguntou-me o porquê deste nome ao meu blog. Acredito que, à semelhança desse leitor, muita gente possa não compreender que raios fui inventar este termo. Quem é natural das ilhas de Santo Antão ou São Vicente certamente que não ficará de todo intrigado com este termo (pode soar mesmo muito familiar)
Pois bem, "sintadez" (nem sei como será a grafia exacta) era a designação por que os sãovincentinos alcunhavam os naturais de Santo Antão, com aquele ar trocista, tipicamente mindelense. Os santantonenses não gostavam desta designação, achando que era um termo muito depreciativo (aliás eu própio, quando fui pela primeira vez a São Vicente, ao chegar à casa da minha tia, a sua filha me perguntou: "bo ti te bem de sintadez?" Não gostei nada, e só queria voltar à casa (coisa de menino).
A pouco e pouco os nativos da ilha foram-se acostumando com o termo a ponto de ninguém mais se achar insultado com a palavra. Aliás, hoje em dia ela parece estar a cair em desuso.
Se eu chegasse hoje à casa da minha prima e ela me perguntasse se venho de sintadez eu teria respondido: "exactamente, venho de sintadez, a ilha nota 10, ondê que bo te sinti 10." (poxa, porque não pensei nisso quando era menino!!)
Mas uma coisa nunca percebi: - o que terá estado na origem da palavra e por que motivo os santatonenses não gostavam do termo. Alguém explica?

27 agosto 2007

Espera(cria)nça


Chuva atrasada
Campos ressequidos
Camponeses apreensivos
A ilha sem alegria
Meninos sem dzinfód: não há ténquin de bórr, nem cestos de pegá-saia, nem bónh ne rbêra, nem lim de pardal... (ainda)
"criança, não choras, um dia verás Cabo Verde florescer"


meninos da Ribeira do Poilão, São Lourenço dos Órgãos.
Foto: BCN

20 agosto 2007

Taça Independência - nota 10 para sinta10

Muito se falou sobre a participação de Sinta10 no torneio Inter-Ilhas que decorreu em São Vicente, de 9 a 18 de Agosto. Não obstante muita fala, muita perpexidade, pouco se disse e menos ainda se escreveu. A excelente campanha começou com uma vitória dos "verdes" sobre a ilha de Santiago. Quem diria? - há quem tivesse (pre)dito, garanto.
Só não pensaram nesta possibilidade alguns meios de comunicação social nacionais que, após tamanho atrevimento dos sinta10enses, calaram-se quietinhos, limitando apenas a fazer uma breve referência ao feito (?) [quando o fizeram]. Ou se algo escreveram, foi com muita leveza (não de espírito), como que sugerindo "chiiuu, mas não digam a ninguém"

Sinta10, cada dia mais 10, vai caminhando e triunfando de pés bem assentes na terra (nas rochas) , "para desespero dos que nos impedem a caminhada". Não, isso não, não digo isso, seria exagero, além do mais isso é plágio (e não quero ir para o Radar que, afinal, não está de férias!) Prefiro dizer "para silêncio dos que pensam(pensavam) que somos coitados (tanã, como diria um espertalhão sem nome, daqueles que abundam nos comments dos nossos jornais electrónicos)

Mechericos à parte, Sinta10 de facto honrou a ilha e acredito que terá reforçado o orgulho de ser de lá de quês s(c)inta 10. Só faltou mesmo ver a taça a atravessar o canal, mas também isso seria muito escandaloso, por isso nô contentá que 2º (ahahaha, lembrei-me da velha história da raposa e as uvas)
Agora dei conta de que, também eu, falei e não disse nada (acontece!)



31 julho 2007

Top de M'randa

Topo de Miranda (ou Top de M'randa num bom vernáculo) é a designação desta emblemática torre. A elevação, que originou o nome do vale da Ribeira da Torre, inspirou também um grupo de jovens das comunidades de Longueira a Chã de Arroz, que há pouco mais de um ano fundaram uma associação - a Associação "Top d'Miranda" - para encontrar parcerias para intervir em diferentes áreas como educação, cultura, desporto, saúde, habitação social e ambiente... e assim promoverem o desenvolvimento do vale.
Na semana passada ouvi, através da RCV, que a Associação estava a promover uma campanha de limpeza ao longo da ribeira. Boa!

Inspirando numa canção que não sei quem é o autor, digo:
"Ó Top de M'Randa (torre) bo quê mas grandi, bo pidi pa Deus, pa thcuva bem, pa que nos vale fica sempre verde...
Mas também para que os dirigentes deste país olhem mais para aquele que é um dos principais celeiros da ilha, e não só. Nem que for só um estradinha, pa ca pesá na.... (Lura ta completá)
Fotos: 1ª - NATO /2ª - BCN
Nota de rodapé: Na recente visita do grupo parlamentar do PAICV a Santo Antão, Kaká Barbosa e seus pares afirmaram/escreveram que Santo Antão é "Santanháco ilha". Bem, não sei se visitaram Ribeira da Torre, mas se por lá tiverem passado, certamente que terão dito que o vale é ... santanhaquinho!!! Só falta santanhacar a sua estrada de penetração.
Artigos relacionados:

09 julho 2007

Linga de Sintonton

“Linga de Sintonton ê um sóbura, flód na moda de nh’ovô, e’m te uvil n’uvid el te zni’m séb” - Quem o diz é o agrupamento musical Cordas do Sol, no seu primeiro CD "Linga de Sintonton".
Mas este
post não pretende falar deste grupo que tanto tem divulgado, através da música, os costumes de SINTA10. Este post é dedicado à sua língua, ou melhor, linga.

De vez em quando dou uma passadinha ao
Dôs Dede de Conversa para ratchá um bocód de Sintonton (na sua forma mais pura). Confesso a minha dificuldade em, de vez em quando, ler sem desembaraço algumas passagens dos textos (logo eu, nicid, criód e feito moço na ilha).
A minha dificuldade não está na falta de conhecimento de determinadas expressões ali empregues mas sim na capacidade de ler com desenvoltura esta ou aquela cadeia de letras que dão forma às palavras (não estamos acostumados com essa escrita)

Durante muito tempo permanceu entre os habitantes da ilha um certo “complexo” que os impedia de ratchá sês linga onde quer que estivessem. Hoje creio que a realidade é bem diferente. Passo numa rua qualquer desta cidade oiço linga de sintonton, vejo alguém a falar para a TV, no Sal, em São Vicente, oiço linga de sintonton, enfim a variante da ilha agora não se confina a 779 km2. Será a globalização? Eu diria glocaboverdianização.
Creio que esta afirmação da linga de Sintonton entre seus pares muito se deve ao teâtro (Juventude em Marcha) e à música (Grupo Porto Grande) que entre os meados dos anos 80 e inícios de 90 tiveram a coragem (?) de a trazer à ribalta (sem complexos)

Abro aqui um parêntesis para falar um pouco desse grupo que era formado por santantonenses a residir em Mindelo, que fez bastante furor nestas ilhas com as suas canções 100% Sintonton e imbuídas de humor. Quem não se lembra por exemplo do Méria czê q bo tem, do "Tchuva de 84" e outras tantas composições a retratarem o quotidiano do Santo Antão profundo? Infelizmente o grupo entrou numa hibernação profunda sem antes ter gravado qualquer disco, que pena! Mais tarde surgiram outros grupos musicais que apostaram na linga de Sintonton: Cordas do Sol, Irmãos Unidos, Mix Cultura… todos já com CDs gravados
(Para fechar o parêntesis prometo futuramente um
post mais detalhado sobre o saudoso grupo Porto Grande)

Voltanto ao Dós Déd de Conversa, é deveras interessante ter um espaço onde apenas se escreve na Linga de SINTA10. Infelizmente, há muito que o Boltchôr Pólina não publica nada por lá (uquiê quê fet de bo, répés???)

22 junho 2007

Festival Nacional de Violino

O festival Nacional de Violino voltou à ilha. Tal como haviam anunciado os organizadores, o evento não ficou pela primeira edição que aconteceu no ano passado. A segunda concretizou-se no passado fim de semana. Ocasião para se reunir violinistas de todas as ilhas e da diáspora (Foram 25) numa confraternização excepcional, porém rara nestas ilhas onde "em cada 10 habitantes 11 toca um instrumento" (alguém escreveu isso algures, já não me lembro onde o li)
Para quem, como eu, fica rendido aos acordes de um violino a ecoarem a partir de um bar qualquer nesta cidade onde isso é coisa rara, assistir em dois dias as "serradas" de uma tropa de 25 viloinistas é verdadeiramente encantador. Infelizmente, por inerência desta minha condição de migrante, nunca pude desfrutar in loco desse encanto.

Defronte o emblemático edifício da Câmara Municipal da Ribeira Grande os homens de Rebeca arancam das cordas melodias muitas vezes nostálgicas capazes de evocar mil sentimentos nos presentes (e de repente me vem à cabeça a imagem, que vi na TCV, de duas senhoras de pés descalços na calçada, a deliciarem lapadas uma na outra, as sonoridades de uma melodia. A ternura com que as duas idosas davam os passos me fez pensar que no momento lhes passavam pela cabeça recordações de tempos outros, de serenata debaixo de janela, certamente)

Este ano o festival homenageou Nhô Joãozinho Alves, pai de uma turma de músicos. No Ano passado foi Nhô Kzick, que é aliás o patrono do festival. Com este evento que parece querer mesmo perpetuar, o falecido violinista das Fontainhas será sempre recordado. Mas também outros que já não estão entre nós serão sempre evocados, casos do Travadinha (também da ilha), Nho Raul de Pina, etc, etc.

Aos vivos o mister é PROSSEGUIR. Aos da ilha, que sejam os principais a divulgarem o certame:
Nhô Kzick (grupo), Lela de Teodoro, Ney Évora... este último na diáspora. Não pude assistir ao teu concerto na Praia mas ouvi dizer que foi um sucesso. Adelante!


07 maio 2007

Imaginação versus realidade

Desde criancinha (!) ouvia falar numa tal estrada Porto Novo-Janela. E morria de curiosidade, de vontade de conhecer esta tal estrada. "Ai, como deve ser interessante esse lugar/estrada, tanto se fala nela!" - exclamava o meu imaginário de menino sonhador que idealizava cada lugar, consoante o nome soasse nos ouvidos.
À medida que ia ganhando um pouco de juízo o cenário cor de rosa típico das criações fantásticas da infância dava lugar à uma "frustração" provocada pela realidade nua e crua (afinal Tarrafal de Monte Trigo não tem aquela paisagem bucólica que via nos meus sonhos acordados; e Topo de Corôa não parece com um rei" - eram frases como estas que expressavam a minha desilusão) Não é que esses e outros tantos locais não sejam paradisíacos, o menino sonhador é que elevava a fasquia das suas imaginações, criando cenários só possíveis em sonhos (agora tenho outros olhos)
E são estes (outros) olhos que agora me fazem delirar com um Tarrafal de Monte Trigo, um Topo de Coroa, um Vale do Paúl ou, claro, uma Ribeira da Torre.
Voltando à minha estrada Porto Novo-Janela: Um dia, já com mais juízo, dei conta de que as criações do meu imaginário baseavam-se, afinal, em projectos, em miragens. E foi assim durante muito tempo. Mas a esperança, que é sempre a última a morrer, veio dizer que não chegou a sucumbir-se. E lá vai a estrada, sobre rodas, desbravando montanhas, encostas e falésias. Ahh, passando até por túneis! Ê Dvera sim! desta vez ê dvera, a estrada Porto Novo-Janela vai ter 3 túneis, uma das quais chega a atingir os 300 metros.
Queria agora ser menino para saber que fantasias iria nascer na minha cabecinha ao ouvir falar nos túneis da estrada Porto Novo-Janela

fotos: Helder Medina

30 março 2007

A porta que um dia se fechou (à tranca)

A imagem mostra o extremo mais à Norte de Santo Antão. É nesta pontinha que se situa a vila da Ponta do Sol (antiga Maria Pia). Vila piscatória, muito limpa, conhecida pelos seus edifícios históricos, dentre os quais sobressai a magestosa Câmara Municipal da Ribeira Grande.

Mas, a importância desta urbe não se esbate nas questões estéticas. A vila encerra história, história de um povo trabalhador, humilde e acolhedor. Antigo "Quartel-general" dos governadores da ilha, foi também o "gózói" de Agostinho Neto, quando este foi deportado para Cabo Verde. E mais, foi das primeiras portas de entrada e saída de Santo Antão, com o seu porto da Boca de Pistola, por isso, considerado um símbolo: um símbolo da dor do "querer ficar e ter que partir" (foi dali que muitos dos nossos avós partiram rumo às roças de São Tomé); da fartura, pois era para lá que se rumava à espera dos barcos de milho, arroz... (lembre-se dos armazéns da Empa?); da penitência (alberga a Cadeia da ilha) enfim...

Ahhh, o papel da Ponta do Sol como porta de entrada de Santo Antão não fica por aqui. É(ra) lá que se situa(va) o aeródromo, uma pequena pista exclusiva para as avionetas tipo Twin Otter.

Com o trágico acontecimento dos finais dos anos 90, a pista deixou de receber aviões e a ilha ficou (apenas) a ver navios.
Mas a pista, coitada, está lá degradada, a ser cada dia engolida pelo mar bravio. Se acontecer uma catástrofe na ilha (Deus defendê) e hover necessidade de uma evacuação de emergência, pode ser que o pequeno Aeródromo Agostinho Neto não sirva para nenhuma operação. E não sei se os helicópteros da Nato irão estar prontos para socorrer.

De todo o modo, não acredito na sua reabilitação (nem exijo isso). Bem, ao menos, se houvesse um ilhéu, tipo Rombo, por aquelas bandas, eu iria ser o primeiro a gritar: - Aaaeeroporto!

Em tempo de Aeroportos Internacionais Sinta10 já não recorda a foma de um aviunzin!!!! Casta de destin ê êss!!?

10 março 2007

Infância na Ilha

Alegria de menino
Água na ribeira
Pirilau na mon
Trepadeira na rotcha,
Arranhos nos braços
Concursos de "fuga"
Ténquin de bórr
Tubos de papaeira
e... rostos alegres

26 fevereiro 2007

Roberto Duarte Silva em dinheiro

Uma homenagem merecida à uma figura que se germinou na ILHA

Assim como outras figuras incontornáveis da nossa história (casos de Amílcar Cabral, Baltasar Lopes da Silva, Eugénio Tavares, entre outros) chegou a vez de Roberto Duarte Silva emprestar o seu rosto à uma das notas em circulação no nosso sistema monetário.
O notável químico cabo-verdiano, que agora vai poder estar mais perto de nós (nos nossos bolsos, nas nossas carteiras, nas caixas dos supermercados, enfim em toda a parte) nasceu em Santo Antão nos idos anos de 1837. Aliás foi precisamente por isso que o BCV escolheu SINTA10 (a ilha e não o meu blog) para proceder ao lançamento oficial da nova nota, que ainda traz no reverso um trapiche, engenho típico da Ilha.
O BCV foi, quanto a mim, bastante feliz na escolha desta personalidade. É que, pese embora os seus grandes contributos para o avanço da ciência, sobretudo no ramo da Química orgânica, Silva permanece um tanto quanto desconhecido entre nós, habitantes desta tirrinha.
Ouvi falar pela primeira vez de Roberto Duarte Silva, tinha eu uns 10 ou 11 anos. Na atura prestou-se-lhe uma grande homenagem na vila da Ribeira Grande e a escola onde eu então estudava – a velhinha Escola Central – foi rebaptizada com o nome “Escola Central Roberto Duarte Silva”. E todos nós, putos ainda na escola primária, fomos “obrigados” a ficar a saber que no século XIX nasceu em Santo Antão um Senhor de nome Roberto Duarte Silva, que após a morte do pai foi admitido como aprendiz num boticário, e que mais tarde emigrou-se para Lisboa, onde estudou na Escola de Farmácia local; que partiu depois para a Ásia (Macau e Hong Kong) e viveu por lá alguns anos, até descobrir a França; que foi então na capital francesa que viria a desenvolver toda a sua actividade que o notabilizou como cientista, tendo recebido muitos prémios, até falecer no dia 8 de Fevereiro de 1889, com escassos 52 anos.
Duarte Silva nasceu numa casa lá na Rua de São Francisco, em Povoação. Também isso fiquei a saber na altura da homenagem, pois, assim como colocaram a placa na Escola Central, também na casa onde nasceu foi posto um letreiro que diz:

Aqui nasceu Roberto Duarte Silva
Notável Químico cabo-verdiano
1837-1889

Lembro-me de, ao intervalo, ir comprar bolinhos de 10 tostões nessa casa, na mercearia do Sr. Cipriano. A loja já lá não está, mas o letreiro sim! Só que… o edifício, uma construção de inegável valor patrimonial, está a cair aos pedaços. Uups!

23 fevereiro 2007

Turismo e ... exotiiismo (porque não!!!??)




À propósito da "Cidade Velha sob gestão privada"

foto BCN

04 janeiro 2007

Quónd musquinha te'mjá...

Um comentário de um leitor sobre a situação actual da mandioca em Santo Antão fez-me viajar no tempo e recordar os tempos em que este produto abundava por todas as ribeiras, encostas e cabeços da ilha. Hoje, apenas sobrevive alguns pezinhos que vão travando uma luta impossível com a tão famigerada mosquinha branca. O mesmo caminho parece estar a seguir o coqueiro que vai caindo todas as folhas, ficando apenas o tronco erecto fitando os céus como que a praguejar.
À nostalgia desse leitor junto um prolongado suspiro : - Triste Sina!

09 dezembro 2006

Coragem na Vertigem

A que realidade esta foto se refere? Quem se atreve a avançar com uma hipótese? Está sendo difícil? Uma dica: é no nosso país, é na ilha de Santiago, é no concelho da Praia, aliás é na "barba-cara" da Cidade da Praia. Bem, é no Monte Vermelho!
Retrato do dia-a-dia de muitos imigrantes africanos a extrairem jorra no Monte Vermelho. "Quando o sacrifício sobe... (alguém para completar a frase?)
(foto BCN)

04 dezembro 2006

Socorro!


Este é o farol Fontes Pereira de Mello, ou popularmente Farol de Boi. Esta magestosa obra foi edificada no sec. XIX. Está lá (ainda), ali na Pontinha de Janela, suplicando aos deuses que lhe estendem uma mãozinha, que cuidem dele porque nos homens já não acredita. Está lá, perscrutando o Atlântico, esse oceano que tanto iluminou para que os navios não conhecessem contratempos enquanto sulcavam os mares rumo às sete partidas. Está lá, degradado, a cair de podre, porque... já passou a história.

(foto BCN - feito em 2002, por isso já lá vão mais 4 anos de degradação) _______________________________________

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Ilhéu dos Bois

Mesmo abaixo do Farol de Boi está este pequeno ilhéu, que também é de Boi. São dois símbolos da ilha que, bem pertinho um do outro, partilham de tudo: testemunham histórias de uma comunidade sofrida (Janela), as lendas, a maresia, enfim partilham até o Boi que lhes serve de alcunha. Companheiro inseparável do farol, o Ilhéu dos Bois confere outra beleza à vista que, à partir do farol, se tem da costa norte da ilha.

19 novembro 2006

Pegá-saia

Quando nas ilhas ainda não havia as lojas chinesas, televisores, Internet, Play-stations, Tarzans e Floribelas a audácia e a criatividade enganavam a necessidade. E fazia-se quase tudo com quase nada, até cestos de Pega-saia (quando viesse a chuva, claro)
(foto BCN)

Tradição e modernidade

Acontece, como é o caso, no espaço rural, pois caso esta foto fosse o retracto de uma situação no meio citadino seria um oasis "urbano". Cá está a prova de que o rudimentar e o moderno se pode conviver, numa concorrência leal. Por mais tecnologia que o carro dispõe, não pode neste caso concreto superar a competência do animal que, ainda, vai lá onde as rodas e os cartões de crédito não chegam.

Foto: BCN

03 novembro 2006

Fruta-pão


Este é um dos produtos que a ilha exibe toda vaidosa. Trata-se da Fruta-pão e, ao que parece, em Cabo Verde a árvore que a produz só existe em Santo Antão. Nesta ilha a árvore abunda e só no vale da Ribeira da Torre deve haver milhares.
A fruta-pão desempenha um papel importantíssimo na dieta do homem da ilha (e não só). Assada, frita ou cozida, ela é ingrediente indispensável para um guisado ou caldo de peixe, pratos típicos da ilha.
Mas como se explica que esta árvore tão vulgar em Santo Antão, não exista nas demais ilhas. Segundo relatos dos
mais velhos, a árvore foi trazida de Las Palmas por um proprietário da ilha que passara por aquelas paragens. Começou-se a plantá-la primeiramente em Ribeira da Torre e depois foi-se espalhando um pouco por toda a ilha. Mas também há quem defenda que foi trazida de São Tomé, país onde abunda a fruta-pão

16 outubro 2006

Santo Antão de outrora

As ribeiras e o camarão

Aqueles que, como eu, nasceram gósterdia, não conhecem o camarão "d'terra". Mas oiço frequentemente os mais velhos, inclusive meu pai, falar deste crustáceo aquático, muito apetecido em todo o mundo. Não que o meu pai e outros habitantes da ilha de Santo Antão estejam a falar de pratos caríssimos em restaurantes ou coisa parecida. Não, ao falarem de camarão referem-se, melancólicos, aos áureos tempos em que nas ribeiras da ilha se apanhava este bichinho aos montes. Os abundantes e permanentes caudais de água doce que outrora corriam por toda a ilha constituíam paraísos para os camarões que se reproduziam à-vontade. Então, a sua presença na ementa do santantonese era constante. Para os apanhar, de entre outras técnicas, colocava-se à tardinha balaios nas pequenas quedas de água para, no dia seguinte, recolherem-nos cheios de camarão, que vinham ao sabor das correntes.
Esta apanha desenfreada fez extinguir da nossa realidade este crutáceo de água doce e salgada, tão caro quanto apetecido. Assim, aqueles que nasceram a partir dos finais da década de 70/inícios de 80 para cá, de camarão conhecem só estórias (como eu).
Se as autoridades tivessem despertado mais cedo para a necessidade de conservação de espécies em vias de extinção...
Na minha recente passagem pela ilha ouvi dizer que foram encontrados alguns camarões algures na Ribeira de Janela. Houve quem dissesse inclusive que chegavam aos 15 centímetros. Não pude confirmar a veracidade destas notícias. E se for verdade, que fazer com tais criaturas!!!!??? (se é que ficaram vivos)

03 outubro 2006

Dragoeiro santantonense

A ilha que é das montanhas também é do dragoeiro!
Quando se olha para uma revista nacional ou então um folheto turístico e se dá de caras com esta árvore, normalmente não se hesita em dizer " é Sao Nicolau"! Pois bem, a ilha de Chiquinho é que tem dragoeiro (pelo menos julga-se que é a única em Cabo Verde). Mas não, na ilha de Santo Antão há dezenas desta árvore endémica. Podem ser encontradas sobretudo nos vales subjacentes ao Planalto Leste e no concelho do Paúl.
Um dos recantos da ilha que mais esconde esta árvore histórica é Ribeirão Grande (foto). Pese embora o nome, este sítio é um pequenino vale muito escondido, situado no Planalto Leste, entre Pinhão e Monte Joana (concelho da Ribeira Grande). Para se chegar ali é preciso desvendar alguns montes por entre caminhos vicinais e atingir uma altitude de quase mil metros.
Uma sugestão para melhor conhecer as belezas escondidas deste país.

17 setembro 2006

Maria de Barros em Santo Antão

Chama-se Maria Conceição Fontes da Graça de Barros. Filha de pais descendentes da ilha Brava, esta crioula nasceu no Senegal, cresceu na Mauritânia e vive actualmente nos EUA - mim nascê na bo berço ó Senegal, um brincá na bos areia ó Mauritânia, ma nha coraçon ta na bo ó Cabo Verde - revela a cantora numa das faixas do seu primeiro álbum "Nha Mundo".
Maria de Barros "é mais um caso de filhos de imigrantes cabo-verdianos nascidos no estrangeiro mas que, contagiados pela música, tornam ferverosos militantes da cultura cabo-verdiana" - escreveu um dia o jornalista Santos Spencer.
Já com dois álbuns editados, a cantora está agora em Cabo Verde em contacto directo com as suas raizes. Começou por actuar no festival da Baía das Gatas, depois subiu aos palcos da Praia de Cruz na Boa Vista, passou por Santiago, Fogo, Brava e agora parte à descoberta de Santo Antão.
Os santantonenses podem agora desfrutar das melodias desta alma crioula, que também canta no dialecto da ilha (quem nunca ouviu o tema "riberonzinha" ou mesmo "ó ménel"?)

28 julho 2006

Quando a falta de uma letra faz toda a diferença...

Atenção: e-mail pode matar
Decidi ligar a rádio. Já passava das 8h da manhã e sintonizei a RDP- África. Como de costume lá estava o jornalista David Borges com as suas crónicas e demais novidades, de resto sempre interessantes. Nesse dia, após a habitual crónica diária, contou esta:
"Atenção, e-mail pode matar! Um casal algures nos Estados Unidos planeava umas merecidas férias num lugar bem afastado da sua residência. O marido, um banqueiro de meia idade, havia entrado de férias com uns dias de antecedência em relação à esposa, esta uma professora universitária. Então decidiu que seria melhor ir desde logo até ao local para assim providênciar um canto bem aconchegante para os dois se relaxarem. Chegou num hotel, gostou das ofertas e decidiu comunicar à esposa. Mas apercebeu-se de que não tinha registado o endereço electrónico dela. Porém, desconfiava que o sabia de coro e tentou. Por azar enganou-se numa letra e a mensagem foi parar à caixa de entrada de uma mulher cujo marido tinha morrido no dia anterior. A mulher, ao abrir a sua caixa soltou um grito ensurdecedor que os vizinhos acharam estranho e foram acudí-la. Ao chegarem encontraram-na estatelada no chão, já sem vida. Um dos vizinhos vê para o ecrã do computador que estava mesmo junto da senhora e depara com a seguinte mensagem na sua caixa de entrada:
Querida esposa, acabei de chegar agora mesmo. A viagem foi boa e as pessoas são maravilhosas. Já que estou a gostar mandei o pessoal preparar tudo para a tua vinda amanhã. Estou ansioso pela tua chegada.

Obs: a temperatura é insuportável

Um beijo do teu amor

Então já sabe, tenha cuidado com os e-mails que escreve. Como disse o David Borges, se esta história não for verdadeira é, pelo menos, bem inventada

Momentos

Há momentos inesquecíveis e certamente que este burrinho, natural e residente no Berço da cabo-verdianidade (cancarã da cabo-verdianidade como diria Nedil Rosa) jamais esquecerá este instante da sua vida. Estava-se numa manhã do mês de Abril quando este famoso jumento teve o privilegio de levar um beijinho da Sua Magestade rainha Sofia de Espanha. Este ilustre filho da novel Cidade de Santiago de Cabo Verde bem se pode gabar de ter conseguido algo que muitos por este mundo sonham um dia conseguir.

18 julho 2006

RIBEIRA DA TORRE - o vale, o verde e a (falta de) estrada

Quem chega à Santo Antão e precisa viajar até ao norte da ilha não deixará certamente de contemplar uma das paisagens mais belas de Cabo Verde. Sai do Porto Novo e ao chegar ao cume da montanha, na localidade de Água da Caldeiras, a paisagem fa-lo-á interrogar se se está realmente em Cabo Verde. É que o verde dos pinheiros e cedros, juntamente com a neblina e consequente clima frio, fazem-no acreditar na justeza do nome deste país.
Passados breves minutos, e ainda sem concluir o seu primeiro momento de espanto, o visitante é obrigado a confrontar-se com nova maravilha: dois vales profundos lhe circundam a estrada. À sua esquerda o vale da Ribeira Grande e do lado direito o da Ribeira da Torre. É deste que vou falar agora.
Estando à muitos metros de altitude, o visitante penetra o olhar nas entranhas do vale e já não quer desviar esse olhar. O alcance da vista é impressionte. Quintais de bananeiras, canas de açucar (donde sai boa parte do grogue produzido na ilha), árvores diversas, sobressaindo as famosas árvores de fruta-pão raras em Cabo Verde mas abundantes no vale, são algumas das atracções que o nosso visitante vê e que lhe desperta a vontade de meter-se vale adentro. Mas não se pode falar da Ribeira da Torre sem se aludir ao magestoso Topo de Miranda, um monte que se ergue mesmo no meio do vale e que dá nome à ribeira (foto). Este acaba por consolidar a vontade do visitante que fica ansioso por aventura-se pelas entranhas do vale.
A sua beleza foi contemplada de longe, do alto da estrada. Ao chegar à vila da Ribeira Grande, o viajante vai querer conhecer agora de perto aquele vale que tantas sensações lhe causara ao transpor a estrada Porto Novo- Ribeira Grande.
Já in loco as descobertas sucedem-se, agora ao pormenor. Vai ver água a correr as ribeiras e tanques de águas cristalinas, inhames verdejantes que vão dançando ao sabor da água que lhes toca o caule, gente acolhedora que o convida para deliciar uma banana ou uma manga, enfim...
No final da sua aventura pelo vale, que muitos já classificaram como dos mais belos de Cabo Verde, a satisfação é plena e o orgulho de ser-se cabo-verdiano é, de certeza, reforçado. Apenas uma tristeza ficará – e esta não é por culpa ou falta de vontade da sua gente: a estrada para o vale (ou a falta dela)
De facto as gentes do vale clamam por uma estrada decente, uma rodovia que resista às cheias, porque aquela que há não passa de uma abertura feita pelos caterpilares. Esta é levada ao mar cada vez que corre as cheias. Mas a penúria não reside apenas no facto de esta “estrada” ser anti-chuvas/cheias. Ela é o itinerário de centenas de estudantes que sob o sol ardente demandam diariamente os bancos da escola na vila da Ribeira Grande. São obrigados a suportarem a fumaça deixada pelas viaturas que vão passando e do vento que não tem piedade de ninguém.
Costuma o povo dizer que uma estrada é o principal motor de desenvolvimento de qualquer zona. Ora, se se levar em conta a importância desempenhada pelo vale da Ribeira da Torre na economia de Santo Antão (e não só) visto ser um dos celeiros da ilha, então é facil perceber a ansiedade dos seus filhos em ter uma estrada condigna que lhes possa facilitar a vida à todos os niveis.
Não é facil aceitar que, por época das chuvas, haja produtos a perderem-se porque as cheias levaram a única via de escoamento dos mesmos. Por exemplo, constantes são as ocasiões em que dezenas de cachos de banana ficam amontoados nas margens da ribeira, e não há forma de os tirar dali porque a estrada desapareceu com um simples ribeiro provocado por uma chuvada. Também, frequente é um agricultor ter que pagar a alguns trabalhadores para que, com enxadas e pás, abram um pequeno traçado suficiente para uma viatura chegar até ao ponto onde estão os produtos, impacientes a aguardarem a sua viagem até ao ponto de venda (Porto Novo e São Vicente, principalmente)
Enfim, são várias as dificuldades por que passam os muitos habitantes do vale, causadas pela falta de uma estrada em condições. Tais dificuldades poderão ser debeladas com a construção de uma ESTRADA de penetração que, ao contrário daquela via que temos, resista às cheias e poupe os torreenses de esforços suplementares.
Com esta infraestrutura nós, os filhos do vale, vamos poder ver a nossa ribeira caminhar sob a estrada segura do desenvolvimento. E o nosso visitante já não terá motivos para torcer o nariz. E quererá voltar, sempre.

02 julho 2006

SINTA10

Sabedor, simples, afável e bonita é a tua gente
Agradável clima, sempre fresquinha e temperada
Narcotiza qualquer visitante
Transporta a vida para o Éden
Opulento em belezas naturais
.
Alteroso em manifestações culturais
Nô bé colá Son Jôn, Son Jôn reveltiód
Terra de mil maravilhas, mil esperanças
Aventura-se pela ilha
Onde dirás - Ó que terra sabe nha gente
Djédjim Neves

Nôs MariJoana

28 junho 2006

Saudosismo

Quando os carrapatos e a palha tinguinha ainda eram uma riqueza
Quando as ladeiras sem dono e sem cmida eram geometricamente demarcadas para recolha de matéria prima (tijolo vegetal)
Quando se antecipava a vinda da chuva (mais ou menos por esta altura) e se guindava nos cumes da casa
Quando ainda se preparava a cachupa e peixe seco para os heróis que montavam os cumes das casas, muitas vezes quase a desmoronarem e enfiavam palha e corda de pernas esticadas uma de cada lado qual cavaleiro em tourada
Saudades de um tempo passado ou um olhar encantado sobre uma obra que ainda persiste em tempos de TECNICIls e IÉFAGÁS?

21 junho 2006

A ilha em livro

Gentes das Ilhas - 61 histórias enquanto o sono não vinha
Peripécias, quase todas brotadas lá da ilha e que deixa um filho ausente sem sono.
Histórias que nos obrigam, enquanto o sono não vem, a viajar pelas entranhas da ilha, revivendo a infância, megulhando no quotidiano das comunidades que só(?) podiam dar a cara num livro de um filho desses cantos escondidos.
Histórias de gente anónima e conhecida, famosa e ignorada, sábia e analfabeta.
Histórias de figuras castiças que nunca, certamente, ter-se-ão sonhado com o seu rosto num livro, mas que agora percorrem o livro de folha à folha, ainda que não conheçam o B-A-BA
A ilha te agradece, Paulino, por teres tazido à ribalta esta nossa gente, estes nossos heróis sem nome, estas simples localidades, este dialecto, esta sabura...

12 junho 2006

A (marav)ILHA

"A mim cordód e'm sonhá
Cabo Verde era um paraíso
cheio de jardin florido...
(...) era riqueza na tchon,
era riacho ta corrê
era um beleza oiá
minis ta brinca na tchon..."
Quando o poeta sonhou e Bana interpretou, certamente não lembraram que em Santo Antão tudo isso é realidade.
Pois é, não se trata de Iguaçu Falls, nem dos Andes... é Delguédin

07 junho 2006

A (DES)ESPERANÇA DA VIDA

foto:Vá Ramos Enquanto nesta vida uns e outros desanimam-se, desligando-se de tudo, outros vão dizendo que a esperança é a última coisa a morrer, conservando sempre a fé de que um dia a vida lhes possa sorrir. Outros mais afortunados, vão gozando a vida proclamando a máxima tipicamente crioula "depôs de sabe morrê ca nada", ainda que esta sabura possa ser à custa do sofrimento de outrem.
Mas, não importa o sofrimento quando o que está em jogo é a obediência à lei do Senhor que manda "crescei-vos e multiplicai-vos!"

06 junho 2006

666 - diabo? besta?

6 de Junho de 2006. Por causa da data 6 de junho de 2006 poder ser abreviada com 06/06/06, isso atrai a atenção como um dia que deve ter alguma conexão com a Marca da Besta. Pode-se dizer que regressa neste dia o fantasma do 666.
O número 666 retém um significdo peculiar na cultura e psicologia das sociedades ocidentais. Como muitas pessoas tentaram evitar o número de "azar" 13 (a fobia desse número é chamado de "triskaidekafobia"), muitas pessoas procuraram um caminho para evitar o "Número do Diabo". O medo do número 666 é chamado de "Hexakosioihexekontahexaphobia".
Por exemplo, quando a gigantesca fábrica de CPU Intel introduziu o Pentium III 666 MHz em 1999, eles escolheram para o mercado o Pentium III 667 com o pretexto que, a velocidade 666,666 MHz não era mais específica que 667 MHz.
Enfim, anticristo, diabo, besta são alguns dos fantasmas que rodeiam este número. Coisa dos supersticiosos?


04 junho 2006

A MIM Ê DI LI

CASA DA CULTURA - seu nome é sugestivo e o spot que o anuncia (va) foi bem conseguido, pelo menos a julgar pelo impacto que teve na sociedade. É que a moda pegou e agora todos são di lí, todos mora li. Se virou moda é porque o povo acatou, e se o povo acAtou é porque gostou.
Mas... e as espectativas em torno do programa? É provavel que o spot di lí, onde até o Ministro da Cultura é di lá, tenha contribuído para colocar e rol de espectativas num nível muito alto. E agora todos criticam o programa, apelidando-o de fatela. É o apresentador que "não passa de uma grande fraude"; é ele que mexe muito com a cabeça; são os conteúdos que não espelham a cultura nacional; é o programa que destila uma pseudocultura; são as filmagens mal feitas, enfim... Ah, aqui eu também concordo. Com tantas falhas, até o cego vê! Por exemplo, quantas panorâmicas sem parar e em todas as direcções, eh Abrão? Isso maltrata o telespectador que fica a navegar ao sabor de tantos trambolhões que parecem vir de uma câmara operada por alguém que sofre de tendinite.
Dias há em que estava a ler o blog da Margarida Fontes*, onde foi publicado um texto que aborda o lado artístico do apresentador da Casa da Cultura. Nos comentários os crioulos aproveitaram para criticar o programa e seu apresentador. O Abrão, que não se fez de rogado, responde aos comentários, dizendo que tudo não passa de inveja e que o que querem é "atacar alguém que neste momento é uma figura pública (doa a quem doer)".
Ulalá, criol te gostá de mandá boca fedi, mas também criol te gostá de angaba e inganá sê cabeça.
Pronto, eu não tenho nada a ver com estas trocas de galhardetes. Só sei que, mesmo que "fatela", vou continuar a ver a Casa da Cultura, sempre que posso. Porque... afinal mim também a mim ê di li (já agora doa a quem doer)

26 maio 2006

Este poema que vos deixo...

A torpe sociedade onde eu nasci
Ser doido, que maior ventura!
Morrer vivendo p’ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório o paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai, quem me dera ser doido também
P’ra suportar melhor quem tem juizo

António Aleixo - in Este livro que vos deixo

O snobismo da sociedade actual

Domingo é dia da gente
Por isso quero ficar na cama
Dormir, dormir, dormir
E quando acordar quero ver Domingo da Gente porque todos o vêem e também sou gente!
Ontem era sábado. A minha amiga foi àquela festa com um vestido que deixou-me a pensar a noite toda.
Perguntei onde é que ela o comprou. Não ficou lá muito contente por ter feito tal pergunta mas acabou por me dizer onde comprou e quanto custou.
A minha mesada não dá para comprá-lo mas já comecei a fazer uma poupança para ver se ainda este mês consiga tê-lo. Mas tem que ser já! Se demoro, ou sai de moda ou torna vulgar. Por isso, agora sequer estou a comprar aquele chocolate que adoro, pa-m pode popa
Por causa daquela telenovela que está a passar agora na tv, toda a gente la na escola veste como ela que é toda poderosa. Hum, eu não gosto da maneira de vestir dela, mas as minhas amigas todas gostam, logo, não vou ficar de fora, né?

Ontem usei aquela expressão que agora está na moda e um meu colega perguntou-me aonde fui arranjar aquilo. Toda a turma riu-se do coitado. Realmente o palerma não está neste mundo. Já aconselhámo-lo a fazer uma reciclagem.

Pooooxa, quel carrão lá, pá. Quel e nha sonho!!! Nha pai, quel antiquado comprá um cosa d’one 60, já’m dzel que el tem que sintonizá. Ma el ê teimoso. Bo sabê manera que ques gente lá ê, nem?

Filho, não deves fazer isso! Ah, mãe, deixa-me em paz, todos fazem e eu é que não vou fazer??? esta na moda, mum!
Filha, porque não usas aquelas calças que te comprei no ano passado? Nãao, são bonitas, gostava delas, mas já não estão na moda
Mas, filha agora já não há outra palavra que não seja moda? Ah, mãe, moda está na moda, e o que ta na moda não se incomoda. E moda Djony que comprá quel skoda. Tud gente dez’l que el era fei ma el dez que skoda te na moda.
Agora la na quel salão es te estód te feze quel pentear de quel mnina daquel publicidade, poxa agora, pe consegui um vaga bo tem que marca’l que antecedência.

Pooxa, e-m escreve descuidod, gora que ja-m repara! Ah, nao faz mal ta na moda

12 maio 2006

(CLAN)DESTINO - casta de destino ê ess?

Faz agora um ano que as autoridades marítimas cabo-verdianas surpreendiam uma embarcação que tentava sair de forma clandestina do país com mais de sete dezenas de cidadãos à bordo. O Jon Cabafumo, o maldito barquinho, foi interceptado na zona de São Tomé, Praia rural. Tudo apontava que o destino era a Europa, servindo as Canárias como trampolin.
Uma vez interceptada, a embarcação foi encaminhada para o Porto da Praia. Sob escolta policial, os ocupantes foram desembarcados e encaminhados para a Esquadra Policial da Achada Santo António. Permaneceram dias no país, tendo alguns activistas dos direitos humanos levantado algumas questões sobre a forma como estariam a ser tratados. Depois o governo encarregou-se de devolver os emigrantes aos seus países de orígem, tendo para isso, alugado um navio.

Já este ano, no mês de Janeiro um barco de pesca com 237 passageiros clandestinos oeste-africanos que pretendiam viajar para a Europa foi interceptado pela Polícia cabo-verdiana nas imediações do Porto da Palmeira, na ilha do Sal. A embarcação, baptizada com o nome "Florence" matriculado no Senegal, esteve ancorado durante algum tempo do Porto de São Vicente para reparações. Depois de deixar aquela ilha, o barco passou pelo Sal, onde teria recolhido grande parte dos candidatos à emigração ilegal. Segundo relatos dos clandestinos às autoridades cabo-verdianas, cada um dos passageiros pagou entre mil e mil e 500 euros para serem transportados inicialmente para as ilhas Canárias, de onde seguiriam posteriormente para um país europeu. O desfecho foi trágico, já que um bote que transportava os passageiros da terra para o bordo do "Florence" ter-se-ia afundado com várias pessoas a bordo. Mais tarde alguns corpos viriam dar à costa.
Há cerca de dois meses, as autoridades marítimas nacionais recebem um alerta de que estaria uma embarcação à deriva nas águas de Cabo Verde. O N/M Matiota partiu da Boa vista em direcção à mesma e ao aproximar-se o cenário não poderia ser mais macabro: 12 cadáveres, já em estado de decomposição, jaziam numa pequena canoa. Entre dificuldades e impasses em torno do destino a darem aos achados, a canoa acabaria por desaparecer no imenso horizonte do Oceano Atlântico.

Na semana passada, mais um caso: desta vez, vindo do largo da ilha Brava, as autoridades marítimas recebem um SOS de um barco que estaria com uma avaria. Partem em direcção ao barco, regatem-no e mais tarde descobrem que, para além da tripulação, havia mais de cinco dezenas de emigrantes clandestinos fechados no porão do pesqueiro.
Agora, lá estão os pobres desgraçados atracados no porto da Praia, à bordo do navio, a espera de um repatriamento. A Cruz Vermelha de Cabo Verde vai assegurando-lhes uma refeição por dia, até o momento de zarparem as águas rumo aos seus destinos, de onde querem a todo custo fugir.
Ainda nessa semana, agora na ilha do sal, cidadãos da nossa costa africana roubam um barco de recreio na Baía de Santa Maria, após terem forçado o único ocupante a lançar-se ao mar mediante ameaça com arma branca. (In)felizmente os desafortunados encalham na zona de Ponta Preta e a polícia consegue capturar alguns desses "raptores marinhos". O barco em questão pertence ao Oscar Duarte, antigo selecçionador nacional de futebol, que veio dizer que há muito que vinha sendo abordado por um cidadão que queria comprar o barco. Duarte assegura que não o fez por desconfiar que o comprador poderia estar elvolvido em tráfico humano.
Lia este fim de semana no "Olhares" de Marilene Pereira, a questão da emigração clandestina que, no olhar da jornalista, poderá intensificar em direcção à Cabo Verde em virtude das políticas cada vez mais cerradas na Europa, com vista a combater este flagelo. Estaremos preparados?
Ahh, ontem ouvi pla radio que um semanário sueco anunciou que a tal canoa que desapareceu das águas de Cabo Verde, após ter aparecido vindo não se sabe de onde, teria dado à costa nos Barbados.