21 maio 2008

PIRRAÇAS ... made in Sinta10

Depois de um período de abstinência (ou será abstenção?) Sinta10 regressa, desta vez com uma pirraça aqui contada pelo meu irmão Jair . Como diria o outro, "nha boca ca está lá"!
Ei-lá:
Falha na avaria
Ribeira da Torre sempre foi um lugar que recebe gentes de várias proveniências, (de Figueiras, de Jorge Luís, de Santa Isabel, de entre outras), lugares onde a vida é mais difícil, dado ao isolamento, pouca oportunidade de trabalho, à pobreza, etc. etc. Para quem não sabe, Ribeira da Torre, é um dos profundos vales de Santo Antão, pertencente ao concelho da Ribeira Grande. Caracteriza-se pelo verde copioso (que se estende em toda a sua dimensão) em virtude da abundância de água, um dos melhores geradores de banana em Cabo-Verde, produz muita cana para o fabrico do “famoso grogue”, muita fruta-pão, enfim, goza de grande riqueza e diversidade de produtos – há muito labor agrícola durante todo o ano, daí a justificação para a sua procura em busca de um dia de trabalho e uma vida que seja um pouco mais "eskéntxin e contente".

Ribeirinha de Jorge, particularmente, tem recebido algumas dessas pessoas, lembro-me do Fabal, do Pé de Rót, do Pé de Aranha, (estes numinhos são-lhes postos pelos rapazes buzód da zona), do Nelson e do Meteje de Deolinda, do Péd Cabeça, entre outras figuras que de certo modo alegravam e alegrem a zona com as suas peripécias, cada um a sua maneira.
Essa é boa, atente-se amigo leitor, é do Fabal.
Um belo dia este rapaz de Figueiras, magro, de estatura média, semblante sempre preocupado, “cabistonto” como diria o Mia, encontrava-se muito aflito, pois que o seu rádiozinho deixara de funcionar. Na sua aflição, passava ao redor da sua casa o Amílcar de Rozére – Mizguin, que lhe perguntou a razão daquela apoquentação. Em jeito de queixume, respondia o Fabal – moço eme tava ei te interté que nhé rédiin, de repente el txá de toká. Mine sebe u ke keme te fezé, jame ebril ma mine sebe dondé kel falha está.
Mizguin, responde-lhe com ar muito sério de quem desejava ajudá-lo na resolução do seu problema – rapaaaajje, kel falha deve estód nekel veria, ebril bo xpiá. Fabal, arreliado disse – ó repéz, go bo ti te ben dzeme kese falha está nese veria, se jáme ebril eme xpiel, el te drete? Mizguin, pertinaz, insiste – jame dzéb ke kel falha está ne kel veria! Kondé ne vida bo kunsé veria dun rádio…vinde de lá dekeje konpe de Fguéra? Se kel veria tivese drét, rádio tava te toká dritin!
Fabal, arreliado como um cão raivoso, explode - bzôt de Rbera do Tore bzôt tem menia de da pe xperte ma nada bzôt sebé, apoje ese véria te méje dret ke bo kebeça, esse falha deve estód note koza ke nen ne véria, ke ese veria te dritin!

Merci, Djédjin

06 maio 2008

Esgrovét

Na sua missão de tentá esgrovetá Sintédez de lés a lés, hoje Sinta10 desenterra (literalmente) um leão que jaze algures na Vila das Pombas, Paul. Esta imagem que conta já décadas de existência, foi resgatada da saudosa Ekhos do Paul, revista trimestral editada em Santo Antão nos inícios dos anos 90.

Eis o texto que acompanha a fotografia:

"A natureza tem coisas curiosas. Pena é que nem sempre se lhes da o devido valor. Este leão (ver foto), petrificado, em posição de guarda e de vigilia perene do ancoradouro do Paço e que sobreviveu a séculos de fustigante mar bravio e do vento de nordeste, foi soterrado, em 1990, com os trabalhos de terraplanagem do novo campo de futebol na zona de -Antonio Soare, no Paul. Fica, no entanto, a
imagem para a posteridade. Ou será que ainda é possivel a sua recuperação? E se os jovens fossem lá tirar a prova, com o apoio, é claro, do Município?"

In Revista Ekhos do Paul, nº 2, Abr/Mai/Jun 1992, pág 46

Foto: Rosendo Pires Ferreira (RPF)

29 abril 2008

150 anos da Praia com olhar sampadjud

Hoje, Sinta10 contorna um pouco a sua linha editorial, assente em esgrovetá Santo Antão de lés a lés, para escrever duas linhas sobre a Cidade da Praia, que completa 150 anos.


Cheguei à Praia em Outubro de 2002. Na altura a cidade tinha 144 anos. Cedo interessei-me por conhecer melhor a capital do país, andei muito a pé, conheci pessoas de diversas proveniências, fiz solilóquios junto ao mar (como aquele nosso poeta) ; quis partir mesmo sabendo que tinha que ficar; enfim tive mil sentimentos. Aprendi a amar a cidade, e hoje, depois do meu Sinta10, aqui é onde mais gosto de estar.
Aprecio o que de bom a Praia tem para oferecer aos habitantes e, embora possa parecer pouco, a Praia tem muitos encantos.
- A nadar já fui duas vezes ao Ilhéu de Santa Maria (que bom! de certeza que lá irei mais vezes)

- Fui muitas vezes de manhã à Quebra Canela (há muito que não vou, não sei bem porquê, mas adoro a praia)

- Vou à tardinha ao Plateau e curto sem manhã a azáfama que inunda as principais ruas do bairro (mesma coisa observo no Sucupira)

- Enfim, coisas aparentemente banais... (mas tenho a mania de querer ver tudo em quase nada)

Gosto da cidade... e nestes 6 anos de convivência com a velhinha (?) que agora faz 150 anos, já aprendi muito. Sim porque gosto de escutá-la, apreciar o seu semblante, conviver com ela... Parabéns à Cidade da Praia
Foto: expressodasilhas.cv

22 abril 2008

Contos e factos

Nasci gósterdia! Não encontrei nada, não cheguei a ver nada, mas ouvi (e oiço) muita coisa. Adoro sentar com os velhos da ilha e escutar as histórias dos anos da sua juventude. Vivências e peripécias da década de 30, 40, 50... me fascinam!

A Sova (contingências de um castigo precoce, entretanto, não consumado)

João Bento, 13 de Dezembro 1945

“Estou indo para a Ribeira, para não ter filho de Antonin, nem de casado, nem de solteiro, para não 'danar' a minha família”


Esta foi a resposta que a Mariana deu ao seu pai quando se viu obrigada a apresentar uma justificativa para a sua largada de João Bento, zona algures no interior do concelho do Porto Novo. O Senhor João Martinho, pai da Dona Mariana, era um homem desaforado e pouco dado a conversas. Nunca se predispunha a ouvir explicações antes de aplicar uma sova de chicote com vara de marmelo a um filho. Desta vez, rompendo um pouco com o hábito, chamou a filha e, com um olhar fixo numa parede, pediu-lhe explicações acerca daquilo que momentos antes ouvira da boca de vizinhos: a Mariana estava de partida para Ribeira, onde passaria a residir, deixando assim o Cómp de Porto.
Ouvida a explicação, Nhô João Martinho calou-se. Por longos minutos pai e filha permaneceram em silêncio, sem se olharem um para o outro. O olhar de João Martinho continuava fito na parede, enquanto Mariana não se levantava a cara do chão.
De repente o pai quebra o silêncio e com uma voz forte e acusadora disse: - sai da minha presença… afinal não é o que queres?
Mariana saiu pé ante pé, tão devagar que parecia recear uma investida do próprio solo que pisava, contra ela. A partida para a Ribeira devia acontecer dentro de três dias, num sábado. Por isso, até a largada, Mariana não queria que houvesse mais motivos para alimentar a ira do pai.
Como que a querer aliviar um pouco o peso da consciência, Mariana pegou num balaio e caminhou em direcção à Merada de Ladeirinha, à cata de feijão.
Estava-se no mês de Dezembro, ainda não havia muita produção, e a apanha de feijão era um processo demorado, já que se ia apalpando e escolhendo as vagens cheias das que ainda deviam permanecer na mãe.
A Mariana tinha deixado em casa o filho de 1 ano e 11 meses. Já passava do meio-dia e ainda não tinha regressado à casa. O pequeno Joãozinho não parava de chorar. A dona Gertrudes, mãe da Mariana, acalentava-o mas sem efeito. Cada vez o petiz chorava com maior intensidade e não dava sinais de querer interromper essa sua tarefa.
Há três metros de distância Nhô João Martinho encontrava-se sentado na soleira de uma portinha que dava para uma despensa contígua à uma cozinha em estilo funco, onde se preparava os matares-de-injú. De pernas esticadas, preparava algumas gavelas de cordas de carrapato para uma amarração de palha de milho que tinha agendado para o dia seguinte com alguns trabalhadores em Fajânzinha de Trás, uma merada algures em Ribeira dos Bodes. Concentrado no seu afazer, João Martinho parecia não estar a ouvir aquele choramingar do neto. Ou então, se ouvia, não esboçava nenhum sinal que denotasse alguma perturbação causada pelo nhéc nhéc nhéc ininterrupto do pequeno. Enquanto permanecia pachorrento na sua tarefa, a esposa, com uma calma impressionante, ia fazendo de tudo para que o netinho parasse de chorar, sem entretanto conseguir os seus intentos.
De repente, o estado das coisas muda. Nho João Martinho, que até então tinha se mantido no seu canto, levanta-se com fúria e dá duas voltas pelo corredor. Pela forma como o fez, adivinhava-se que algo pouco simpático estaria prestes a sair das entranhas do velho. E depressa se confirmou a suspeição. Ao fim da terceira volta pelo corredor, o homem lançou um forte suspiro, que as suas narinas pareceram soltar fumo qual turbinas de um trem movido à carvão. Dona Gertrudes, que bem conhecia os sinais do seu marido, começou a ficar tensa: - “Meu Deus, este homem já não está bem, o que é que ele estará a pensar, hein?” – suspirou Gertrudes.
E mal a mulher formulou o seu raciocínio, nho João Martinho sentenciou: “Dá-me cá esta merdinha, vou ver se comigo ele não pára com esta berraria”. E sem coragem de se opôr à ordem do marido, Gertrudes entregou-lhe o neto e correu para dentro da casa para fazer orações. Mas de nada iria valer as preces da mulher. João Martinho pega no pequeno chorão, leva-o para o cume de uma parede, ata-o as perninhas com uma das mãos e dependura-o de cabeça para baixo. Xpundród qual cabrito prestes a ser pêrrnód, o menino intensifica a berraria, fazendo lembrar os últimos instantes da vida de um pequeno capóde quando solta os apertados berros por entre a corda de piadura e a faca do matador. Entretanto, no exacto momento em que João Martinho se prepara para aplicar a primeira chicotada ao menino, Mariana surge em frente ao corredor com o seu saco de feijão à cabeça. Desesperada, larga a carga e grita em alvoroço: - “se o senhor vai fazer aquilo ao meu filho, é melhor que o deixe e faça comigo tudo o que quer fazer com ele.” À súplica da mãe, o velho ripostou: - “na verdade, é contigo que eu faço isso”. Mas a aflição de Mariana deve ter trazido à lembrança do velho a história da legítima mãe no Julgamento de Salomão. Sem soltar mais qualquer palavra, João Martinho largou o chicote e entregou o filho à progenitora, retomando, de seguida, a tarefa que havia interrompido.
Enquanto isso, Mariana, sentindo-se ameaçada com a ira do pai, arrumou de pronto os seus parcos pertences, meteu-nos numa pequena maleta que a sua madrinha lhe tinha oferecido e abandonou a casa dos pais. Foi então morar numa pequena casinha da sua prima, a três quilómetros de distância, numa zona chamada Chã Vermelho. E ali permaneceu com o filhinho até ao momento da sua largada para Ribeira, o que viria a acontecer três dias depois.
Mariana acabaria então por deixar o Cómp de Porto com uma justificação mais forte do que aquela que sustentara quando fora instada pelo pai a justificar a sua decisão de mudar de região. O “partir para Ribeira para não ter filho de Antonin”, de quem se dizia ser bruxo, dava lugar à uma espécie de obrigação em se retirar por ver a integridade física dela e do seu bebé ameaçadas após a atitude do pai.

to be continued...

19 abril 2008

Dia dos monumentos e sítios - um olhar diferente

Ontem era dia dos monumentos e sítios. Há dois anos, por esta ocasião, lançava um olhar sobre Alcatraz. Este ano fui até o meu sinta10 escolher a estrada Porto Novo-Ribeira Grande. Para mim a obra é um autêntico monumento edificado por dezenas de herois anónimos que, de cordas amarradas à cintura iam escrepando rochas, pondo a vida em risco. Até ainda custa-me entender como esses herois, que não tiveram direito à bustos, conseguiram abrir o Delguédin

12 abril 2008

Bananas (de borla)

A desventura do Paulino em ter pago em Assomada 700 paus para meia dúzia de bananas dá que pensar. Tentando compreender como foi possível chegar à simpática soma, fiz muitos cálculos mas fiquei QO. Então, dei duas voltas à cabeça e fui vasculhar as minhas vivências em Santo Antão, marcadas por uma relação muito próxima com a banana, desde o plantio, a rega, a limpeza, o corte (colheita), o transporte e, claro a devoração do fruto.
Lembrei-me daquelas "impolas" na palma das mãos quando perfurava-mos os buracos para meter as "herdeiras"; dos fusos insuportáveis que vinham dos nabos (caule apodrecido da bananeira) que cortávamos para tapar buzil e interrnôdor no momento da rega (nota-se que horas depois éramos nós a gerar esses fusos - meu irmão David tornou-se especialista nesta "arte"); das picadas insuportáveis das centopeias que quase sempre se encontravam no meio desses nabos; daquela chatice em carregar os cachos, com o receio de ficarmos com a nossa vestimenta pintada de nódoas; dos concursos a ver quem conseguia comer mais bananas em menos tempo...
Pois é, por altura do verão, com o calor as bananeiras produzem mais e as bananas começam a amadurecer mais depressa. Nas hortas encontrávamos cachos maduros, com pardais ta engordá na banana e nós, convivendo com estes pequenos concorrentes na descontra, íamos fazendo as nossas farras.
São muitas as espécies desse fruto: banana anã: vão para São Vicente às carradas e eram aquelas que mais comíamos; banana santoma (de São Tomé): mais cara que a anterior, era para "ramos" e vendas pontuais; banana prata: sobretudo para encomendas; banana macho: para comer frita; banana rôcha: para comer em família, porque rara... Enfim, outras como gigante, inglesa, etc. logo se via o que fazer com cada indana.
Bem não sei que espécie terá o Paulino comido. Se for anã... não sei que zer; se for Prata, talvez a bananas fossem literalmente de prata; se for santoma, talvez por ser muito rara aqui em Santiago; se for macho, talvez cada unidade pesasse um kilograma; se for rôcha, talvez devido à sua beleza. Se forem outras espécies.... heh, tá difícil continuar...
Fotos: banana rôcha de Ribeira da Torre (por BCN)

02 abril 2008

FIGURAS DA ILHA - Ménél Brôco

Os textos do Boltchôr aqui no seu blog me têm feito lembrar algumas peripécias de personagens castiças da ilha. Hoje, lembrei-me do Ménel Bróc, lá de Selada de Ribeirinha de Jorge. Cuitód, el e'mrrê vítima de atropelamento, em circunstâncias muito estranhas e nunca clarificadas (Déus te dél um descónse ne sê alma)
Ménel era Brôc, l'en dava uvi nada, nada, nada, gent tava falá ma el era sô k gesto. Um dia el tava te dtchê ne tchida de Selada e el incontrá dôs mlhêr ne ses conversa. El pará, el cumprimentés e el fcá la pósmód um bquédin. Possód uns moment, el voltá pê ês el dzê, cum ar incmodód:
- "Bem, mim já bé te dtchê, bsot te ne bsot segréd, més log bsot t'uvil lá drriba, bsot e'n de bé dzê quê mim k já léstrél"
Caramba, como seria possível Ménél lastrá quel segréd se el era brôc?!!! Bsot dzê'm

31 março 2008

Saúde p'Antónia d'Aninha

Nha Antónia d'Aninha acaba de dar à estampa o Cd "Boxon", um trabalho que vem resgatar uma das tradições da ilha, infelizmente em queda livre: o "b'tá saude", outrora indispensável em algumas cerimónias, sobretudo casamentos. Com 76 anos, esta mulher é ainda das poucas que existem na ilha e que mantém acesa esta tradição. Nha Da Cruz Naça, lá da Ribeirinha de Jorge, era outro vulto nesta prática, mas infelizmente faleceu há dois anos. Para a posteridade apenas ficaram memórias. Felizmente, no caso de Nha Antónia, há agora este registo para as gerações vindouras! Ó saúd pe Déninha.. oooolélélélééé

27 março 2008

Blog daquel bom

Também estou com aqueles que reconhecem muita dificuldade em fazer a escolha de 2 blogs daquel bom made in CV. Em cada blog CV encontro posts que me interessam bastante, sendo que alguns me prendem.
Entretanto, como forma de fintar a dificuldade, nesta minha escolha guio-me apenas pelo critério da afinidade e parentesco
1 - blog do Paulino - por o considerar uma espécie de prolongamento (mais erudito) do meu sinta10
2 - Bem dzid - mais uma ala (terra terra) da ilha; uma viagem pelos encantos do meu dialecto profundo.

19 março 2008

Coisas boas da vida

Respondendo ao desafio lançado novamente pelo Paulino aqui...

Na madrugada do passado dia 21 de Fevereiro registei estas imagens do eclipse da lua. Era por volta da 01: 45 quando, com três colegas, estava eu deitado no terraço da casa, de olhos para o ceu a captar estas imagens. No meio de um silêncio profundo, só se se ouvia de quanto em vez o latir de um cão que soava fundo. Foi uma experiência indescritível, assistir a uma das maravilhas da Natureza. Enfim, uma das coisas boas da vida, aprentemente insignificante que, só assistindo se poderá sentir quão impressionante é este mundo!!!

18 março 2008

Um vôo para Santo Antão

O incidente que envolveu Jorge Santos e José Maria Neves, por altura da inauguração do Santantão Art Resort terá surgido tendo como pano de fundo a questão do possível novo aeroporto para Santo Antão. A ilha, que já não se recorda da forma de um aviunzin como certo dia escrevemos aqui, em materia de aeroportos por enquanto apenas serve de palco para incidente. Agora, não seria bonito que esse quiproquo fosse ultrapassado no dia da inauguração de um aeroporto em Santo Antão? Estou a imaginar o JMN e o JS no vôo inaugural sentados lado a lado em amena cavaqueira, momentos antes da aterragem do avião:
JMN - "Anton, Tchoriss, bu ta lembra di quel dia qui bu tchoma'n 'mentiroso' li na Porto Novo, precisamenti por causa di aeroporto?
JS - Adé Zemas, inda bo ti te lembrá dess cosa? Aquilo já é passód, moss!! Gora ê so voá...
JMN - bu ten razon! E ..hoji cuzê qui ta sai?
JS - Um groguin lá de Coculi, queijo de Lagoa, pontche de Paúl... ó zemas bo tinha dzid que, pa nôs, Aeroporto não era prioridade, mas hoje e'm te dzê que prioridade é festa, heheheh
OBS: Os dois protagonista não não estão na política activa

12 março 2008

07 março 2008

24 anos de Marcha

Em 1984 nascia em Porto Novo o grupo teatral "Juventude em Marcha". O agrupamento depressa se tornou popular devido à qualidade das suas peças, prenhes de humor, criatividade e muito trabalho de campo.
Hoje, o Juventude em Marcha é sem dúvida um dos grupos teatrais mais populares de Cabo Verde e a isso se deve, em muito, a qualidade dos seus actores, em especial o César Lélis e o Jorge Martins. Ao longo desta caminhada de 24 anos o grupo enfrentou várias dificuldades, mas conseguiu sempre superá-las a ponto de estar hoje "com os pés bem fincados na terra". O carácter popular das suas peças faz com que qualquer espectáculo do grupo esteja repleto de pessoas, o que é sempre uma boa motivação. Aliás o João Branco dizia ontem na RCV que no teatro há um triângulo em que num vértice estão os actores, noutro está a estória e no terceiro o público. E realmente o público tem sido um aliado importantíssimo para o Juventude em Marcha (lembro-me de uma vez quando o grupo veio apresentar "O Preço de um Contrabando" no Auditório Nacional, mais de metade das pessoas que se dirigiram ao local ficaram sem assitir ao espectáculo porque não havia espaço para tanta gente)
Mas o grande bastião do grupo tem sido São Vicente. Não é por acaso que a grande maioria das suas actuações a nível nacional acontecem nessa ilha. O grupo tem sabido retribuir esse carinho e é de se notar que muitas das suas estreias acontecem em Mindelo.
Em comemoração aos 24 anos (as bodas já estão prateadas) o grupo tem agendado para este fim-de-semana duas actuações em Mindelo, com a mais recente peça "Jazigos da Boca de Pistola". Mais uma oportunidade pra malta de Soncent vendê télisca à vontade.

22 fevereiro 2008

Passagem com outra pinta

Já não era sem tempo!! (se calhar nem justificava haver tempo para tal)
A linda Passagem vai receber obras. Os canteeiros vão voltar a ter relva, as casinhas de palha vão receber nova cobertura, a piscina vai ser pintada, as árvores vão ser podadas... enfim, ao que parece esse recanto - um dos encantos de Santo Antão - vai voltar aos seus áureos tempos. Tempos áureos que, alíás, nunca deveriam ter deixado de existir, mas que por ... até me falta a palavra, pocha!
As obras estão prestes a começar, graças a uma parceria entre um investidor irlandês e a Câmara Municipla do Paúl. Espero que daqui há alguns meses o cenário que aqui denunciámos já esteja a fazer parte do passado. Hah, e que não venhamos a ser impedidos de lá entrar (dtcha'm vrá ess boca pralá, isso tal Deus non permite)
De todo o modo, preferia que não houvesse motivos para estes remendos. Mas, enfim... é cina de criol, tchá cabá tud primer pa dpôs bem rmediá, ainda com direito a inscrições para a posteridade (tipo aquela que está la na rampa de Poeta, ASA!) Hehehe, ja'm mandá um boca!!!

20 fevereiro 2008

18 fevereiro 2008

Uma semana de Santo Antão na Praia (eco de um post no Djaroz)

Há dias o Djoy Amado surgiu com uma ideia interessante, tendo-a expressado aqui no seu blog. Gostei da ideia e pus-me a pensar.

Desde que estou na Praia conheci muita gente, vinda de todos os cantos, descobri outros costumes, outras realidades, mas, acima de tudo, comecei a conviver com pessoas de todas as ilhas. É aqui que reside o meu maior encanto por esta cidade.

Na Praia, pude conviver (e convivo) com pessoas oriundas de todas as ilhas de Cabo Verde, algo muito difícil de conseguir se se estiver numa outra ilha.

Uma cidade tão cosmopolita como a Praia deveria aproveitar muito mais desta condição e ser uma autêntica caldeira a efervescer manifestações culturais de todos os gostos, com criatividade a emanar dos poros de cada residente.

A ideia lançada pelo Djoy de ter um mês de cada ilha, nesta cidade é de facto muito bem vinda. Por mim, já bastava uma semana.

O Sinta10, de antena virada para Santo Antão, propõe aqui a semana da sua ilha na Praia:
Musica, dança, gastronomia, récitas, teatro, exposições, enfim um pouco de tudo made in Santo Antão, para não só dar a conhecer um pouco mais da ilha, como também proporcionar aos filhos e aos demais residente uma oportunidade de se sentirem dentro da ilha.
Imagino o Auditório Nacional lotado para assistir ao Juventude em Marcha; uma noite suave no Quintal da Música com os sons do Mix Cutura; o Centro cultural Francês a expôr a arte de Bento d’Oliveira, ou dos irmãos Levi; os Cordas do Sol a cantar linga de Sintonton numa rua do Plateau; um grupo qualquer das Fontainhas ou Figueiras ta ratchá uma contradança ou uma masurca; Leão Lopes a liderar uma conferência tipo “pensar Santo Antão; Paulino dias no Palácio da Cultura a contar as estórias de Fajâ Domingas Bentas; uma exposição/venda de doces, licores, pontche, queijos e outros produtos da ilha na Biblioteca Nacional, enfim…
Como seria bonito uma semana de cada ilha na Praia.

Sinta10 já fazê sê proposta, que venham mais 10!

11 fevereiro 2008

Carnaval da Ponta do Sol

Em Santo Antão também há carnaval. A vila da Ponta do Sol ê bom nel, e já houve dias melhores, quando o carnaval da vila competia com o da Penha de França, vila da Ribeira Grande. Era sempre renhida a disputa entre Maravilhas do Oceano e Sol Real.

Este ano também houve desfile, houve muita animação, muita festa na antiga Maria Pia. Mas apenas animação!

Bem, na ilha as cinzas não celebramos, o dia passa quase que despercebido, assim como noutras ilhas de Barlavento, que pena! Porque será?
E nós, por cá fomos ao interior de Santiago, saltitámos de casa em casa e regressámos à cidade de barriguinha a luzir.
Nesta foto, "Oriundos do Universo", um grupo criado este ano, recorda o passado áureo do carnaval na Ponta do Sol

10 fevereiro 2008

Flagelados do Vento Norte (ou será ventos do carnaval solpontense?)

Há duas semanas lia no Expresso das Ilhas uma notícia segundo a qual os presos da cadeia da Ponta do Sol estariam na iminência de passar fome, devido a falta de alimentos naquele estabelecimento prisional.
Ao deparar com os factos(?)pensei para comigo: isto é verdade, ou será uma piada de carnaval, já que a época é propícia para certas pirraças? Sim, porque, ao menos, se fosse greve de fome, teria dito que de certa forma já estamos acostumados com presos a injutir pitéu para reivindicar isto ou aquilo. Agora,faltar comida nas cadeias!!!, ainda por cima numa cadeia regional,com as dimensões da de Ponta do Sol?
Nisto, lembrei-me de um amigo busód da Ponta do Sol que há dias me contava, meio a sério, meio a brincar, que os presos dessa cadeia vivem sab pa fronta; que saem de manhã para ganharem o seu dia e voltam à tardinha; que organizam jogatinas com os habitantes da vila, etc., etc.
Hoje, ao comentar a notícia com um colega, este rematou: "talvez esses presos comam em casa pelo que a cadeia não deve estar preocupada em providenciar alimentação aos seus inquilinos"
Bem, brincadeiras à parte, a acreditar no Expresso da ilhas, a coisa é grave, grave mesmo! Créd n'emstêr!

28 janeiro 2008

27 janeiro 2008

MEMÓRIAS (histórias de Praia Formosa)

Cresci ouvindo hitórias sobre o naufrágio do "John", um navio americano que na década de 40 naufragara nas costas da ilha de Santo Antão, carregado de milho. O tempo era de crise, a fome grassava a ilha e a população morria a míngua. O naufrágio terá sido então um mal que veio por bem, porquanto a população, de todos os cantos da ilha, forjou uma famigerada romaria ao local, em busca de gãos de milho para "encher o papo"

As histórias são muitas... lembro-me daquelas de Nha Zidora, a causar-nos comoção e espanto. Ela que na altura acompanhara a mãe, era ainda adolescente (passaram 3 ou 4 dias a andar a pé, por entre desertos e sol ardente), até chegar ao local.
A propósito deste sucedido, deambulava pela Internet e fui desembocar neste artigo. É interessante ler este peculiar olhar sobre uma (negra e pouco conhecida) página da nossa história.
Uma homenagem a Nha Zidora, que tanto povoou o imaginário da minha infância com contos e lendas (su)REAIS sobre a ilha. Quando lá voltar espero encontrá-la ainda com forças e memória para recontar aquelas sobre São Tomé e Príncipe, para onde chegou a ir como contratada.

19 janeiro 2008

O drama da chuva e a ilusão de óptica

2007 foi mais um ano em que não choveu na ilha. Mete dó a reportagem do jornalista João Almeida Medina sobre a situação dos criadores de gado no concelho do Porto Novo, publicada na edição nº 825 do A Semana, de 30 de Novembro.
Mas, esta contou-me o meu irmão e não me contive em risos:

Dizia-me que há alguns anos um jovem das Figueiras – uma das localidades mais encravadas do concelho da Ribeira Grande - lhe contara das dificuldades que ele e sua família tiveram que enfrentar em mais um ano de seca na ilha. A chuva não veio, os campos permaneciam ressequidos e o pouco pasto que ainda se podia encontrar estava tão tostado que as cabras negavam a comê-lo. Por mais que as alimárias tivessem fome não se mostravam dispostas a meter a focinheira no pasto, isto num claro desafio à máxima local segundo a qual “burro que tem fome ta cmê até córd”
Todo aquele que, na localidade, tivesse uma cabrinha estava desanimado porque nenhuma das criaturas dava sinais de querer suspender a “greve de fome”. Nem um pingo de leite para enganar o café preto as famílias conseguiam, já que as cabras, outrora leiteiras, estavam moribundas. Então, desesperado, que resolve fazer um dos moradores?
Arranja um punhado de garrafas verdes (daquelas que trazem vinho Tinto), corta-as em forma circular e com ares de arame fabrica alguns pares de óculos, bem especiais. Colocou um par nos olhos de cada cabra e não é que os bichos começam a devorar o pasto? Pois é, as cabras, coitadas, levadas pela ilusão de óptica, pensavam que a palha estava verde e devoravam tudo que lhes aparecessem pela frente. A partir daí começaram a restabelecer as parcas forças e até ressurgiu aquele pinguinho de leite para enganar o café.
Afinal, as cabras não só nos ensinaram a comer pedras como também nos obrigaram a fabricar óculos… especiais.

Pois, é o hábito tipicamente crioulo de brincar com a própria desgraça.

12 janeiro 2008

As "alminhas de porra"

São, seguramente, a espécie de ave mais pequena que existe em Cabo Verde. Acarinhado por uns, amaldiçoado por outros, os pardais (alminhas de porra como lhes chamaram os Cordas do sol) sempre fizeram parte da vivência do homem rural cabo-verdiano. Dzusperóds que nem “menino nascido na fraqueza de lua” como dizia Baltasar Lopes em Chiquinho, os pardais formam bandos e ficam a esvoaçar de propriedade em propriedade a cata de alimentos. Frutos, legumes, ervas, larvas, pequenos insectos, flores... tudo lhes serve de petisco.
E é precisamente por causa da sua manhenteza que as vezes são uma autêntica dor de cabeça para os camponeses. Que o diga os agricultores do interior do Porto Novo que, neste momento, conforme o A Semana, estão a travar uma luta contra estas criaturas. É que os pardais estão a dizimar as colheitas de tomate e cenoura, deixando os agricultores de cabelos em pé.
Lembro-me de quando erámos obrigado a levantar bem cedo e ir às meradas guardar os pardais para que não destruíssem as plantações de milho, no momento em que estivessem a despontar do solo os primeiros raminhos. Era uma tarefa muito chata, primeiro porque tínhamos que antecipar o amanhecer, depois porque tínhamos que ser bem ágeis com as nossas fundas para poder acompanhar as constantes inversões de marcha dos bichinhos. Mas isso era apenas uma vez por ano, quando as sementes de milho estivessem a germinar, entre Julho e Agosto. O que acontecia o tempo todo era as assadas de pardais, que montávamos depois de os caçar nas sorças feitas com latas de atum e laçadas de linha de nervo.
Era um prazer dar nos dentes as canelinhas de kitch dos bichinhos e depois exclamar: “bsot ê dzesperod ma nos é que te cme bsot".
Enfim, coisas de menino… da ilha

Pardais te cmê girasol no jardin da minha mãe
Fotos: BCN

10 janeiro 2008

O combate à PDM

Aleluia, aleluia! O suspiro deve ter saído em uníssono e ecoado por todas as ribeiras, ladeiras seladas e cabeços da ilha. Os agricultores de Santo Antão vão poder, finalmente, comercializar seus produtos nas ilhas do Sal e Boa Vista, pondo fim a mais de vinte anos de quarentena por causa dos malditinhos milpés. Ahh, malditinhos não, são malditões! Imaginem, então, um bicho que resistiu mais de duas décadas à tudo e todos! Nem governos, nem governantes, nem presidentes, enfim nenhuma autoridade pôde, ao longo de todo esse tempo, arranjar forma de dominar o pirralho para assim poder levantar o embargo. Nem as antigas Milícias, nem as FARP, nem a POP e nem a PN conseguiu, ao longo de todos esses anos, barrar a passagem desses bichinhos na fronteira? Que força, hein!

Agora que somos PDM vamos, finalmente, conseguir criar um centro de expurgo para a PDM. Não se assuste, este 2º PDM refere-se à Praga Dos Milpés.

05 janeiro 2008

Mar de canal

Terminou as curtas férias de Natal e fim-de-ano na ilha. Como é doloroso o momento em que se entra no hiace para galgar as colinas rumo a Porto Novo - a agora única porta da ilha (porta por onde diariamente saem e entram centenas de pessoas)!

No dia 2 de Janeiro, ao ver as três embarcações que todos os dias fazem a ligação Santo Antão - São Vicente a se aproximarem, como que em fila indiana, do cais do Porto Novo, pus-me a pensar: - e se houvesse uma ponte a ligar as duas ilhas? Afinal, alguns dos desejos do António Ludjero Correia para Cabo Verde não são tão utópicos quanto possam parecer.
Só mesmo vendo a "ruanata" diária desses navios no canal, se pode ter a real consciência do quão importante seria tal ponte.

Afinal, como diz A. L. Correia "sonhar é preciso"

06 dezembro 2007

Paul, Casa do Escritor e... Oriente

O vale do Paul é tido como um dos lugares mais belos de Cabo Verde. Pela sua orografia, pela exuberância da sua vegetação... penso que se justifica em pleno este rótulo.
Paúl esconde encantos, belezas, um potencial turístico enorme. Paul tem história, tem (agri)cultura...Paul encanta, por isso muitos que por lá passam, cantam-no.
E não será, certamente, por acaso que o "berço de Januário" poderá vir a albergar a Casa do Escritor. A ideia já foi lançada e, aos seus promotores - Vera Duarte, e AMIPAUL - Sinta10 levanta um aplauso
e aproveita para propor uma viagem diferente ao concelho.


O Oriente no Paul

Ao reparar nesta foto me veio à memória a Grande Muralha da China. É certo que por esse caminho não chego a nenhuma muralha. Antes, esta vereda, que até parece transportar-nos para o além, leva-nos até algures em Santa Isabel, no concelho do Paul.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de associar esta imagem à majestosa Grande Muralha. Salvaguardando, claro, as proporções.

E, já agora...

que dizer deste exemplo de interculturalidade?

O autor da 1ª fotografia é a personagem que agora aparece nesta 2ª. De nacionalidade chinesa, Kayo esteve em missão no Paul durante cerca de 5 meses, ao serviço do Corpo da Paz. Mas não vou falar dela. Falo da foto, da riqueza expressiva que a mesma encerra.

A cobertura da casa, as paredes em pedra seca, a porta e a sua fechadura, a escada de pau e o sôrron faz-nos mergulhar num Santo Antão profundo. Ainda, num primeiro olhar este mergulho no profundo poderá ser bruscamente interrompido pelo “elemento estranho” – o chinês. Mas, um olhar mais demorado desvenda, em vez de um “ruído”, um exemplo de perfeita comunhão de povos, de integração onde eu te dou e tu me dás. Os chinelos que aparecem em cima da escada são um produto chinês, trazido pelos comerciantes. O nativo comprou-os usa-os no dia-a-dia. De tanto utilizá-los, teve que aplicá-los alguns pontos para aumentar a sua durabilidade. E é provável que tenha usado linha de cisal preparada a partir da planta que cresce nos cumes das montanhas da ilha.
Já, o sorron nas costas da chinesa é bem nosso. Só não sei se nessas costas o mesmo terá seguido viagem até ao oriente. Quem sabe!?

14 novembro 2007

PASSAGEM: SOS na primeira pessoa

"Chamo-me Passagem, sei que sou um ponto de passagem obrigatória para aqueles que visitam Santo Antão. Tenho piscina de água doce, águas cristalinas que correm por entre inhames e hortelãs, enfim tenho uma paisagem que, modéstia à parte, é espectacular.
Ao longo da minha vida já recebi centenas e mais centenas de caravanas que vêm passar um dia diferente, contemplando meus encantos. Já deixei maravilhado milhares de pessoas, locais e forasteiros.
Mas estou revoltado: é que já estive bem melhor. A minha piscina, meu ex libris, está feinha, meus canteiros já não têm ervas verdejantes. Porque será que estão e destratar-me desta forma, eu que já servi tanta gente, sem olhar a quem!!!"

Don't forget me, please! I'm (was) so nice!

04 novembro 2007

A Ordem do Dragoiro (coisas escondidas de Santo Antão II)

Continuo a reivindicar o direito de Santo Antão ser (também) considerada a ilha do dragoeiro. Quero ver os folhetos turísticos sobre a ilha dizendo que é (também) ilha que alberga essa planta milenar e endémica de Cabo Verde
Ainda espero ver na capa de uma revista tipo FRAGATA, numa edição sobre Santo Antão, uma grande fotografia do dragoeiro santantonese, essa planta tão simbólica... que, inclusive, dá nome a um tipo de condecoração, das mais prestigiantes de Cabo Verde.

Dragoeiros no Vale do Paul
Fotos: BCN

03 novembro 2007

À propósito de caminhada... (à ti, Paulino)

Ao ler aqui a descrição de uma caminhada pela ilha de Santiago, veio-me à memória uma caminhada que fiz no mês passado na ilha de Santo Antão. Itinerário: Cova – Vale do Paul. Peço-te licença, Paulino, para reformular a tua afirmação e dizer: “definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!”

Éramos três. Saímos de casa as 7 da manhã. De mochila às costas apanhámos uma viatura na vila da Ribeira Grande e rumámos ao Planalto Leste. São cerca de 30 minutos de carro, sempre a galgar montanha. A brisa fria e as gotículas de orvalho que nos batem no rosto fazem-nos antever um dia ideal para aventura - sem sol ardente. À medida que nos aproximamos da floresta do Planalto Leste, os rostos começam a franzir. Uma chuvinha miudinha, cada vez mais constante, deixa-nos receosos: “hum, parece que a chuva nos vai impedir a caminhada”. Mas não, ao aproximarmo-nos da Cova notámos que a chuvinha só se confinava à parte densa da Floresta. Descemos da viatura. Esta curva-se pra direita e prossegue a sua viagem rumo ao Porto Novo. Nós, voltando p'ra esquerda, começamos a descida rumo à Cova. Pelo caminho cruzamos com um conjunto de burros que, orientados por alguns garotos, cumprem mais um dia de tarefa rotineira: o transporte de água. Após admirar cada detalhe da paisagem daquela que é a cratera de um vulcão extinto, continuamos a nossa caminhada. Já estamos a subir o outro lado da Cova e daqui a pouco, quando chegarmos ao cume, conseguiremos ver o vale do Paul, lá em baixo.
Passam alguns minutos e… hups! Está o vale do Paul lá em baixo. Uma instantânea curtina de nuvem tapa-nos a visão (até parece que alguém está a fazer uma queimada rocha abaixo! Mas não, é “fumo” natural). Dez minutos de descanso, tempo suficiente para fazer um pequeno lanche. De onde estamos, de um lado vemos o interior da Cova - que já deixamos para trás - e do outro, o Vale do Paul – que nos aguarda. Estamos debaixo de um arbusto e de repente somos molhados por alguma gotas de água bem grossas. É chuva? Não, é que veio uma neblina e ao passar pela árvore gera água. Que maravilha!!!
Já são quase 10 horas. Vamos descer. O caminho é bom, embora algo inclinado. Cabo de Ribeira está à vista, ao fundo. Ouve-se murmúrios, sons de animais e de actividade humana. Vê-se canaviais, cafeeiros, bananeiras, macieiras… a descida está aprazível e agora muito raios de sol começam a despontar por entre nuvens errantes.
Atingimos 45 minutos a descer e estamos prestes a encontrar as primeiras casas. São os primeiros contactos com as gentes do Vale do Paúl. Agricultores a trabalharem a terra, água a correr por levadas, animais a pastar, cheira-se a terra molhada, à cinza de trapiche, à mel de cana, há tanques cheios de água... vamos dar um mergulho no Tanga (um dos maiores tanques da ilha). Estamos a descer vale abaixo, já deixamos o povoado de Cabo de Ribeira e o Tanga já está bem próximo. Chegámos! O tanque está cheio, parece um mar calmo. Alguns garotos vão dando seu mergulho. Apressamos a dar o nosso também. A água está fresquinha! Parámos uns 30 minutos e por altura da nossa retirada já havia muita gente no local.

A descida prossegue, estamos a atravessar a Passagem – um dos cartões de visita do Vale de Paúl, ou mesmo da ilha. Primeira desolação da caminhada: este outrora joia da ilha está em decadência, está abandonado… incompreensivelmente! A piscina está estorricada, parece que há muito tempo não viu água (entretanto um forte caudal passa na ribeira ao lado). Os canteiros onde antigamente havia ervas verdejantes estão desertos, só se vê terra, no entanto as flores selvagens das buganvilhas, estas persistem, talvez por não dependerem tanto do cuidado dos humanos. Bem, prosseguimos a caminhada pois Passagem não está tão atraente como antigamente. O próximo ponte de passagem é a cachoeira.
Já são 14 horas. Passando por canaviais, inhames e outras plantas caminhamos em direcção à cachoeira. A vegetação é densa. As correntes de água são constantes. Cachoeira está um paraíso! Deixamo-nos ficar por cerca de uma hora. Ao som do barulho das quedas de água, almoçamos. O Fefa e o Ady, dois caminhantes que encontramos pelo caminho quando subíamos a Cova, estavam connosco e convidamo-los a almoçar. Só que não havia pratos para eles. Que solução? Serviram o seu petisco em folhas de inhame. Imagine que comunhão perfeita com a Natureza!

Deixamos a cachoeira rumo à vila das Pombas, que é onde teríamos que apanhar o carro rumo ao ponto de partida – Ribeira Grande. Pelo caminho, muita vegetação, muita admiração, e ainda muita estrada por andar. Pudemos desfrutar da beleza de um dos recantos mais lindos do país; ver uma riqueza paissagística onde abunda cana de açúcar, bananeira, mangueira, papaeira, inhame, e até dragoeiro (essa tal planta endémica de Cabo Verde, que só existe em São Nicolau (?)) Mas também vimos mulheres a lavarem roupa nas águas que correm pelas ribeiras (imagem hoje em dia pouco comum); vimos meninos a saltarem, de cabeça, de grandes altitudes para depois murgulharem como peixe no fundo dos tanques (como o Groguinha lá no tanque de Marrador, Paulino; ouvimos o chirlear de pardais, sentimos o cheiro da terra fertil, enfim…

Chegámos à Vila das Pombas por volta das 5 da tarde… Era a segunda vez que fazia a mesma caminhada, mas foi mais uma descoberta, onde se voltou a respirar a Natureza, sentir o pulmão da ilha, viajar no tempo, viver a vida…

“Definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!"

27 outubro 2007

Sete maravilhas de Sintadez

Há dias lia num jornal da nossa praça uma proposta das sete maravilhas de Cabo Verde. Entre algumas para mim consensuais e outras muito discutíveis, lá já estava eu a fazer a minha lista. E, como não podia deixar de ser, elaborei a minha proposta das sete maravilhas de Sintadez. Ei-la:

1 - Vale do Paúl
2 - Cova
3 - Topo de Coroa
4 - Fontaínhas (incluindo sua via de acesso)
5 - Estrada Porto Novo - Ribeira Grande (com a floresta de Água ds Caldeiras e o Delgadinho)
6 - Ponto de canal
7 - Os montes de Ribeira da Torre (Topo de Miranda e Lombo de Pico)

Outras sugestões? Novo sete?

11 outubro 2007

Coisas escondidas de Santo Antão (I)

A ilha de Santo Antão é rica! Mas a sua riqueza está muitas vezes escondida, e só se ouve falar de montanhas, de mil pés (malditos bichinhos), de pobreza, de boa gente e pouco mais. Mas a ilha esconde um tesouro e quanto mais o conhecemos, mais há por descobrir. Assim, o Sint10, cumprindo a sua missão, reinicia esta semana com mais uma serie de pequenos artigos sobre aspectos menos conhecidos da ilha. E hoje, este post é sobre o café de Santo Antão.

Á semelhança da ilha do Fogo, Santo Antão produz o seu quinhão de café. Embora sem a expressividade da ilha do vulcão, Santo Antão pode gabar-se de poder beber café produzido no seu próprio torrão; gabar-se de também poder cultivar um dos produtos mais apetecidos em todo o mundo. As regiões altas de Lombo Branco, Pinhão, Monte Joana, Matinho de Leste (concelho da Ribeira Grande) e outras tantas no concelho do Paúl foram outrora locais de grande produção do café, sendo que ainda hoje se cultiva este produto, embora de forma menos intensa. Quem caminhar pelas entranhas de Monte Joana, Ribeirão Grande, Cidereira e outros locais do Planalto Leste encontrará ainda os famosos lédris (grandes espaços cercados por altos muros de pedra seca, onde se fazia a secagem do café). Hoje, muitos desses espaços encontram-se abandonados em ruínas ou então são usados como estábulos para animais. Mas quem ainda hoje quiser conhecer uma extensa plantação de café na ilha, aconselho-o a caminhar até Róiód, um pequeno vale, muito interessante, situado na parte mais alta de Pinhão (no cabeço). Com uma orografia que faz lembrar a famosa Cova, Róiód ainda conserva milhares de pés de café, e alguns casebres em ruinas. Vale a pena visitar o lugarejo, sobretudo se for na época das chuvas. Mas atenção, a que ter canela pa escanelá à pé.



"Crú doce, czid morgozo" (adivinha popular alusiva ao café)

Cafeeiros em Santo Antão
Cabo de Ribeira, Paúl
Fotos: BCN (Set. 2007)





04 setembro 2007

Sinta10 - o porquê do nome

Há dias alguém perguntou-me o porquê deste nome ao meu blog. Acredito que, à semelhança desse leitor, muita gente possa não compreender que raios fui inventar este termo. Quem é natural das ilhas de Santo Antão ou São Vicente certamente que não ficará de todo intrigado com este termo (pode soar mesmo muito familiar)
Pois bem, "sintadez" (nem sei como será a grafia exacta) era a designação por que os sãovincentinos alcunhavam os naturais de Santo Antão, com aquele ar trocista, tipicamente mindelense. Os santantonenses não gostavam desta designação, achando que era um termo muito depreciativo (aliás eu própio, quando fui pela primeira vez a São Vicente, ao chegar à casa da minha tia, a sua filha me perguntou: "bo ti te bem de sintadez?" Não gostei nada, e só queria voltar à casa (coisa de menino).
A pouco e pouco os nativos da ilha foram-se acostumando com o termo a ponto de ninguém mais se achar insultado com a palavra. Aliás, hoje em dia ela parece estar a cair em desuso.
Se eu chegasse hoje à casa da minha prima e ela me perguntasse se venho de sintadez eu teria respondido: "exactamente, venho de sintadez, a ilha nota 10, ondê que bo te sinti 10." (poxa, porque não pensei nisso quando era menino!!)
Mas uma coisa nunca percebi: - o que terá estado na origem da palavra e por que motivo os santatonenses não gostavam do termo. Alguém explica?

27 agosto 2007

Espera(cria)nça


Chuva atrasada
Campos ressequidos
Camponeses apreensivos
A ilha sem alegria
Meninos sem dzinfód: não há ténquin de bórr, nem cestos de pegá-saia, nem bónh ne rbêra, nem lim de pardal... (ainda)
"criança, não choras, um dia verás Cabo Verde florescer"


meninos da Ribeira do Poilão, São Lourenço dos Órgãos.
Foto: BCN

20 agosto 2007

Taça Independência - nota 10 para sinta10

Muito se falou sobre a participação de Sinta10 no torneio Inter-Ilhas que decorreu em São Vicente, de 9 a 18 de Agosto. Não obstante muita fala, muita perpexidade, pouco se disse e menos ainda se escreveu. A excelente campanha começou com uma vitória dos "verdes" sobre a ilha de Santiago. Quem diria? - há quem tivesse (pre)dito, garanto.
Só não pensaram nesta possibilidade alguns meios de comunicação social nacionais que, após tamanho atrevimento dos sinta10enses, calaram-se quietinhos, limitando apenas a fazer uma breve referência ao feito (?) [quando o fizeram]. Ou se algo escreveram, foi com muita leveza (não de espírito), como que sugerindo "chiiuu, mas não digam a ninguém"

Sinta10, cada dia mais 10, vai caminhando e triunfando de pés bem assentes na terra (nas rochas) , "para desespero dos que nos impedem a caminhada". Não, isso não, não digo isso, seria exagero, além do mais isso é plágio (e não quero ir para o Radar que, afinal, não está de férias!) Prefiro dizer "para silêncio dos que pensam(pensavam) que somos coitados (tanã, como diria um espertalhão sem nome, daqueles que abundam nos comments dos nossos jornais electrónicos)

Mechericos à parte, Sinta10 de facto honrou a ilha e acredito que terá reforçado o orgulho de ser de lá de quês s(c)inta 10. Só faltou mesmo ver a taça a atravessar o canal, mas também isso seria muito escandaloso, por isso nô contentá que 2º (ahahaha, lembrei-me da velha história da raposa e as uvas)
Agora dei conta de que, também eu, falei e não disse nada (acontece!)



31 julho 2007

Top de M'randa

Topo de Miranda (ou Top de M'randa num bom vernáculo) é a designação desta emblemática torre. A elevação, que originou o nome do vale da Ribeira da Torre, inspirou também um grupo de jovens das comunidades de Longueira a Chã de Arroz, que há pouco mais de um ano fundaram uma associação - a Associação "Top d'Miranda" - para encontrar parcerias para intervir em diferentes áreas como educação, cultura, desporto, saúde, habitação social e ambiente... e assim promoverem o desenvolvimento do vale.
Na semana passada ouvi, através da RCV, que a Associação estava a promover uma campanha de limpeza ao longo da ribeira. Boa!

Inspirando numa canção que não sei quem é o autor, digo:
"Ó Top de M'Randa (torre) bo quê mas grandi, bo pidi pa Deus, pa thcuva bem, pa que nos vale fica sempre verde...
Mas também para que os dirigentes deste país olhem mais para aquele que é um dos principais celeiros da ilha, e não só. Nem que for só um estradinha, pa ca pesá na.... (Lura ta completá)
Fotos: 1ª - NATO /2ª - BCN
Nota de rodapé: Na recente visita do grupo parlamentar do PAICV a Santo Antão, Kaká Barbosa e seus pares afirmaram/escreveram que Santo Antão é "Santanháco ilha". Bem, não sei se visitaram Ribeira da Torre, mas se por lá tiverem passado, certamente que terão dito que o vale é ... santanhaquinho!!! Só falta santanhacar a sua estrada de penetração.
Artigos relacionados:

09 julho 2007

Linga de Sintonton

“Linga de Sintonton ê um sóbura, flód na moda de nh’ovô, e’m te uvil n’uvid el te zni’m séb” - Quem o diz é o agrupamento musical Cordas do Sol, no seu primeiro CD "Linga de Sintonton".
Mas este
post não pretende falar deste grupo que tanto tem divulgado, através da música, os costumes de SINTA10. Este post é dedicado à sua língua, ou melhor, linga.

De vez em quando dou uma passadinha ao
Dôs Dede de Conversa para ratchá um bocód de Sintonton (na sua forma mais pura). Confesso a minha dificuldade em, de vez em quando, ler sem desembaraço algumas passagens dos textos (logo eu, nicid, criód e feito moço na ilha).
A minha dificuldade não está na falta de conhecimento de determinadas expressões ali empregues mas sim na capacidade de ler com desenvoltura esta ou aquela cadeia de letras que dão forma às palavras (não estamos acostumados com essa escrita)

Durante muito tempo permanceu entre os habitantes da ilha um certo “complexo” que os impedia de ratchá sês linga onde quer que estivessem. Hoje creio que a realidade é bem diferente. Passo numa rua qualquer desta cidade oiço linga de sintonton, vejo alguém a falar para a TV, no Sal, em São Vicente, oiço linga de sintonton, enfim a variante da ilha agora não se confina a 779 km2. Será a globalização? Eu diria glocaboverdianização.
Creio que esta afirmação da linga de Sintonton entre seus pares muito se deve ao teâtro (Juventude em Marcha) e à música (Grupo Porto Grande) que entre os meados dos anos 80 e inícios de 90 tiveram a coragem (?) de a trazer à ribalta (sem complexos)

Abro aqui um parêntesis para falar um pouco desse grupo que era formado por santantonenses a residir em Mindelo, que fez bastante furor nestas ilhas com as suas canções 100% Sintonton e imbuídas de humor. Quem não se lembra por exemplo do Méria czê q bo tem, do "Tchuva de 84" e outras tantas composições a retratarem o quotidiano do Santo Antão profundo? Infelizmente o grupo entrou numa hibernação profunda sem antes ter gravado qualquer disco, que pena! Mais tarde surgiram outros grupos musicais que apostaram na linga de Sintonton: Cordas do Sol, Irmãos Unidos, Mix Cultura… todos já com CDs gravados
(Para fechar o parêntesis prometo futuramente um
post mais detalhado sobre o saudoso grupo Porto Grande)

Voltanto ao Dós Déd de Conversa, é deveras interessante ter um espaço onde apenas se escreve na Linga de SINTA10. Infelizmente, há muito que o Boltchôr Pólina não publica nada por lá (uquiê quê fet de bo, répés???)

22 junho 2007

Festival Nacional de Violino

O festival Nacional de Violino voltou à ilha. Tal como haviam anunciado os organizadores, o evento não ficou pela primeira edição que aconteceu no ano passado. A segunda concretizou-se no passado fim de semana. Ocasião para se reunir violinistas de todas as ilhas e da diáspora (Foram 25) numa confraternização excepcional, porém rara nestas ilhas onde "em cada 10 habitantes 11 toca um instrumento" (alguém escreveu isso algures, já não me lembro onde o li)
Para quem, como eu, fica rendido aos acordes de um violino a ecoarem a partir de um bar qualquer nesta cidade onde isso é coisa rara, assistir em dois dias as "serradas" de uma tropa de 25 viloinistas é verdadeiramente encantador. Infelizmente, por inerência desta minha condição de migrante, nunca pude desfrutar in loco desse encanto.

Defronte o emblemático edifício da Câmara Municipal da Ribeira Grande os homens de Rebeca arancam das cordas melodias muitas vezes nostálgicas capazes de evocar mil sentimentos nos presentes (e de repente me vem à cabeça a imagem, que vi na TCV, de duas senhoras de pés descalços na calçada, a deliciarem lapadas uma na outra, as sonoridades de uma melodia. A ternura com que as duas idosas davam os passos me fez pensar que no momento lhes passavam pela cabeça recordações de tempos outros, de serenata debaixo de janela, certamente)

Este ano o festival homenageou Nhô Joãozinho Alves, pai de uma turma de músicos. No Ano passado foi Nhô Kzick, que é aliás o patrono do festival. Com este evento que parece querer mesmo perpetuar, o falecido violinista das Fontainhas será sempre recordado. Mas também outros que já não estão entre nós serão sempre evocados, casos do Travadinha (também da ilha), Nho Raul de Pina, etc, etc.

Aos vivos o mister é PROSSEGUIR. Aos da ilha, que sejam os principais a divulgarem o certame:
Nhô Kzick (grupo), Lela de Teodoro, Ney Évora... este último na diáspora. Não pude assistir ao teu concerto na Praia mas ouvi dizer que foi um sucesso. Adelante!


07 maio 2007

Imaginação versus realidade

Desde criancinha (!) ouvia falar numa tal estrada Porto Novo-Janela. E morria de curiosidade, de vontade de conhecer esta tal estrada. "Ai, como deve ser interessante esse lugar/estrada, tanto se fala nela!" - exclamava o meu imaginário de menino sonhador que idealizava cada lugar, consoante o nome soasse nos ouvidos.
À medida que ia ganhando um pouco de juízo o cenário cor de rosa típico das criações fantásticas da infância dava lugar à uma "frustração" provocada pela realidade nua e crua (afinal Tarrafal de Monte Trigo não tem aquela paisagem bucólica que via nos meus sonhos acordados; e Topo de Corôa não parece com um rei" - eram frases como estas que expressavam a minha desilusão) Não é que esses e outros tantos locais não sejam paradisíacos, o menino sonhador é que elevava a fasquia das suas imaginações, criando cenários só possíveis em sonhos (agora tenho outros olhos)
E são estes (outros) olhos que agora me fazem delirar com um Tarrafal de Monte Trigo, um Topo de Coroa, um Vale do Paúl ou, claro, uma Ribeira da Torre.
Voltando à minha estrada Porto Novo-Janela: Um dia, já com mais juízo, dei conta de que as criações do meu imaginário baseavam-se, afinal, em projectos, em miragens. E foi assim durante muito tempo. Mas a esperança, que é sempre a última a morrer, veio dizer que não chegou a sucumbir-se. E lá vai a estrada, sobre rodas, desbravando montanhas, encostas e falésias. Ahh, passando até por túneis! Ê Dvera sim! desta vez ê dvera, a estrada Porto Novo-Janela vai ter 3 túneis, uma das quais chega a atingir os 300 metros.
Queria agora ser menino para saber que fantasias iria nascer na minha cabecinha ao ouvir falar nos túneis da estrada Porto Novo-Janela

fotos: Helder Medina

30 março 2007

A porta que um dia se fechou (à tranca)

A imagem mostra o extremo mais à Norte de Santo Antão. É nesta pontinha que se situa a vila da Ponta do Sol (antiga Maria Pia). Vila piscatória, muito limpa, conhecida pelos seus edifícios históricos, dentre os quais sobressai a magestosa Câmara Municipal da Ribeira Grande.

Mas, a importância desta urbe não se esbate nas questões estéticas. A vila encerra história, história de um povo trabalhador, humilde e acolhedor. Antigo "Quartel-general" dos governadores da ilha, foi também o "gózói" de Agostinho Neto, quando este foi deportado para Cabo Verde. E mais, foi das primeiras portas de entrada e saída de Santo Antão, com o seu porto da Boca de Pistola, por isso, considerado um símbolo: um símbolo da dor do "querer ficar e ter que partir" (foi dali que muitos dos nossos avós partiram rumo às roças de São Tomé); da fartura, pois era para lá que se rumava à espera dos barcos de milho, arroz... (lembre-se dos armazéns da Empa?); da penitência (alberga a Cadeia da ilha) enfim...

Ahhh, o papel da Ponta do Sol como porta de entrada de Santo Antão não fica por aqui. É(ra) lá que se situa(va) o aeródromo, uma pequena pista exclusiva para as avionetas tipo Twin Otter.

Com o trágico acontecimento dos finais dos anos 90, a pista deixou de receber aviões e a ilha ficou (apenas) a ver navios.
Mas a pista, coitada, está lá degradada, a ser cada dia engolida pelo mar bravio. Se acontecer uma catástrofe na ilha (Deus defendê) e hover necessidade de uma evacuação de emergência, pode ser que o pequeno Aeródromo Agostinho Neto não sirva para nenhuma operação. E não sei se os helicópteros da Nato irão estar prontos para socorrer.

De todo o modo, não acredito na sua reabilitação (nem exijo isso). Bem, ao menos, se houvesse um ilhéu, tipo Rombo, por aquelas bandas, eu iria ser o primeiro a gritar: - Aaaeeroporto!

Em tempo de Aeroportos Internacionais Sinta10 já não recorda a foma de um aviunzin!!!! Casta de destin ê êss!!?

10 março 2007

Infância na Ilha

Alegria de menino
Água na ribeira
Pirilau na mon
Trepadeira na rotcha,
Arranhos nos braços
Concursos de "fuga"
Ténquin de bórr
Tubos de papaeira
e... rostos alegres