22 abril 2008

Contos e factos

Nasci gósterdia! Não encontrei nada, não cheguei a ver nada, mas ouvi (e oiço) muita coisa. Adoro sentar com os velhos da ilha e escutar as histórias dos anos da sua juventude. Vivências e peripécias da década de 30, 40, 50... me fascinam!

A Sova (contingências de um castigo precoce, entretanto, não consumado)

João Bento, 13 de Dezembro 1945

“Estou indo para a Ribeira, para não ter filho de Antonin, nem de casado, nem de solteiro, para não 'danar' a minha família”


Esta foi a resposta que a Mariana deu ao seu pai quando se viu obrigada a apresentar uma justificativa para a sua largada de João Bento, zona algures no interior do concelho do Porto Novo. O Senhor João Martinho, pai da Dona Mariana, era um homem desaforado e pouco dado a conversas. Nunca se predispunha a ouvir explicações antes de aplicar uma sova de chicote com vara de marmelo a um filho. Desta vez, rompendo um pouco com o hábito, chamou a filha e, com um olhar fixo numa parede, pediu-lhe explicações acerca daquilo que momentos antes ouvira da boca de vizinhos: a Mariana estava de partida para Ribeira, onde passaria a residir, deixando assim o Cómp de Porto.
Ouvida a explicação, Nhô João Martinho calou-se. Por longos minutos pai e filha permaneceram em silêncio, sem se olharem um para o outro. O olhar de João Martinho continuava fito na parede, enquanto Mariana não se levantava a cara do chão.
De repente o pai quebra o silêncio e com uma voz forte e acusadora disse: - sai da minha presença… afinal não é o que queres?
Mariana saiu pé ante pé, tão devagar que parecia recear uma investida do próprio solo que pisava, contra ela. A partida para a Ribeira devia acontecer dentro de três dias, num sábado. Por isso, até a largada, Mariana não queria que houvesse mais motivos para alimentar a ira do pai.
Como que a querer aliviar um pouco o peso da consciência, Mariana pegou num balaio e caminhou em direcção à Merada de Ladeirinha, à cata de feijão.
Estava-se no mês de Dezembro, ainda não havia muita produção, e a apanha de feijão era um processo demorado, já que se ia apalpando e escolhendo as vagens cheias das que ainda deviam permanecer na mãe.
A Mariana tinha deixado em casa o filho de 1 ano e 11 meses. Já passava do meio-dia e ainda não tinha regressado à casa. O pequeno Joãozinho não parava de chorar. A dona Gertrudes, mãe da Mariana, acalentava-o mas sem efeito. Cada vez o petiz chorava com maior intensidade e não dava sinais de querer interromper essa sua tarefa.
Há três metros de distância Nhô João Martinho encontrava-se sentado na soleira de uma portinha que dava para uma despensa contígua à uma cozinha em estilo funco, onde se preparava os matares-de-injú. De pernas esticadas, preparava algumas gavelas de cordas de carrapato para uma amarração de palha de milho que tinha agendado para o dia seguinte com alguns trabalhadores em Fajânzinha de Trás, uma merada algures em Ribeira dos Bodes. Concentrado no seu afazer, João Martinho parecia não estar a ouvir aquele choramingar do neto. Ou então, se ouvia, não esboçava nenhum sinal que denotasse alguma perturbação causada pelo nhéc nhéc nhéc ininterrupto do pequeno. Enquanto permanecia pachorrento na sua tarefa, a esposa, com uma calma impressionante, ia fazendo de tudo para que o netinho parasse de chorar, sem entretanto conseguir os seus intentos.
De repente, o estado das coisas muda. Nho João Martinho, que até então tinha se mantido no seu canto, levanta-se com fúria e dá duas voltas pelo corredor. Pela forma como o fez, adivinhava-se que algo pouco simpático estaria prestes a sair das entranhas do velho. E depressa se confirmou a suspeição. Ao fim da terceira volta pelo corredor, o homem lançou um forte suspiro, que as suas narinas pareceram soltar fumo qual turbinas de um trem movido à carvão. Dona Gertrudes, que bem conhecia os sinais do seu marido, começou a ficar tensa: - “Meu Deus, este homem já não está bem, o que é que ele estará a pensar, hein?” – suspirou Gertrudes.
E mal a mulher formulou o seu raciocínio, nho João Martinho sentenciou: “Dá-me cá esta merdinha, vou ver se comigo ele não pára com esta berraria”. E sem coragem de se opôr à ordem do marido, Gertrudes entregou-lhe o neto e correu para dentro da casa para fazer orações. Mas de nada iria valer as preces da mulher. João Martinho pega no pequeno chorão, leva-o para o cume de uma parede, ata-o as perninhas com uma das mãos e dependura-o de cabeça para baixo. Xpundród qual cabrito prestes a ser pêrrnód, o menino intensifica a berraria, fazendo lembrar os últimos instantes da vida de um pequeno capóde quando solta os apertados berros por entre a corda de piadura e a faca do matador. Entretanto, no exacto momento em que João Martinho se prepara para aplicar a primeira chicotada ao menino, Mariana surge em frente ao corredor com o seu saco de feijão à cabeça. Desesperada, larga a carga e grita em alvoroço: - “se o senhor vai fazer aquilo ao meu filho, é melhor que o deixe e faça comigo tudo o que quer fazer com ele.” À súplica da mãe, o velho ripostou: - “na verdade, é contigo que eu faço isso”. Mas a aflição de Mariana deve ter trazido à lembrança do velho a história da legítima mãe no Julgamento de Salomão. Sem soltar mais qualquer palavra, João Martinho largou o chicote e entregou o filho à progenitora, retomando, de seguida, a tarefa que havia interrompido.
Enquanto isso, Mariana, sentindo-se ameaçada com a ira do pai, arrumou de pronto os seus parcos pertences, meteu-nos numa pequena maleta que a sua madrinha lhe tinha oferecido e abandonou a casa dos pais. Foi então morar numa pequena casinha da sua prima, a três quilómetros de distância, numa zona chamada Chã Vermelho. E ali permaneceu com o filhinho até ao momento da sua largada para Ribeira, o que viria a acontecer três dias depois.
Mariana acabaria então por deixar o Cómp de Porto com uma justificação mais forte do que aquela que sustentara quando fora instada pelo pai a justificar a sua decisão de mudar de região. O “partir para Ribeira para não ter filho de Antonin”, de quem se dizia ser bruxo, dava lugar à uma espécie de obrigação em se retirar por ver a integridade física dela e do seu bebé ameaçadas após a atitude do pai.

to be continued...

6 comentários:

Bôltchor Dô Cruz Pólina (Conjudi pudér Déuxe) disse...

Hummm . Min la ne Rbera das Pata disde k min é puknuk nunca m uvi ess esteriada benvass..bo n di te deme keske ne? Realmente kej tchã e R'bera tem tonte estora k é impossivel cuncé tud eje...
Brilhante..muito interessante...bo ti te escrevé bem han repéz.
Abrace. Boltchor

Benvindo Neves disse...

Ó repéz uah ess e'n nê keske nada. Bo séb, mim nha avó ê de la de kes banda nen. Por isso em tem ne boú um mont de estória e esclepatcháda que el te contá.Claro, um gás tem que pintés, nem?

E'm fcá content que bo precioçon (ma e'n ne keske, nem?)

Abraço

Anónimo disse...

'm te dora uvi estória de Sentonton inda por cima quej de cómp! Te lembém béstent de nhe infancia...'m te fca te espera continuoçom...
Fca dret.
Mnininha de Sentonton

Benvindo Neves disse...

Mnininha de Puvoçon, continuoçon te prei te esperá passagem. Més um tempo e'm te soltá próximo capítulo, que te contá nomoro de Mariana ma Antonin
(foi um nomoro que'n tchgá ter "malcrioçon"... mas detalhes te bé fcónd
Um abraço

Bôltchor Dô Cruz Pólina (Conjudi pudér Déuxe) disse...

hahahaha..busod! Braça

karsh disse...

muito amigo, gostei muito da sua intervençao acerca do assunto bolivia gostei mesmo, gostaria de algumas dicas suas para melhorar o meu blog kars13@gmail.com força irmao