04 outubro 2008

Um património com nome de boi, mas... sem força

Depois da tempestade...
Bem não sei se digo que vem a bonança. Prefiro apenas pensar que a Meteorologia esteja a prever dias menos zióg.
Não estou a falar de furacões, daqueles que nos chegam, felizmente só pela televisão, e vezes sem conta arrasam sobretudo países das Caraíbas e costa dos Estados Unidos. Refiro-me à tempestade de insensilidade que tem afectado o Farol Fontes Pereira de Melo, vulgo Farol de Boi, sito no Nordeste de Santo Antão. Costumo ser um indivíduo um bocado céptico, ou então um espécie de São Tomé que para crer precisa de ver, com os seus (próprios) olhos, naturalmente!
Por isso mantive sem euforias quando, na semana passada, via e ouvia o ministro das Infraestruturas e Transportes, Manuel Inocêncio, a anunciar na TCV que já existe, ou vão conceber (já não me recordo) um projecto para recuperar o já tão definhado Farol de Boi. E para dar corpo ao meu cepticismo fui revolver os meus arquivos e reler um apontamento sobre esse farol, da autoria de Rosendo Pires Ferreira, publicado na antiga revista Ekhos do Paul, ediçao nº 2, segundo trimestre de 1992.
O autor começa por fazer uma breve incursão pela história e escreve que o farol “foi mandado construir por Portaria Régia de 2 de Abril de 1884, para indicar a entrada do canal de Sao Vicente pelo Norte, iniciou a sua actividade a 15 de Maio de 1886, conforme AVISO DOS NAVEGANTES publicado no Boletim Oficial n17, de 17 de Abril desse longinquo ano”.

Note-se que em 1992, altura em que foi produzido o artigo, o farol já completava 106 anos de “ininterrupto funcionamento”, facto, aliás, assinalado pelo articulista.


O artigo prosegue a indicar o papel de “importância transcendente” que o farol “desempenhou na rota dos navios que cruzavam o Atlântico medio e particularmente nas rotas dos Sul e para as Américas”; lança um olhar sobre as características que fazem do Farol de Boi um “bem histórico-patrimonial” para, já na parte final, abordar o futuro dessa magnífica obra.
Ah, pois... é aqui onde eu queria chegar! Segundo Pires Ferreira, em Novembro de 1991, a AMIPAUL, em carta dirigida ao então Ministro da Educação, que também na altura tutelava a pasta da Cultura (...) “chamou a atenção do governo para esse Património Histórico Nacional (...) e solicitou o reconhecimento formal dessa qualidade”. Entretanto, fazia notar o autor, “mais de seis meses depois (...) nenhuma reacção oficial foi tornada pública a esse respeito”
Posteriormente, ao que parece, soube-se que a então Direcção-Geral da Marinha Mercante teria a pretensão de “transformara essas instalações num museu”, ideia que seria prontamente acarinhada pela AMIPAUL conforme faz notar Ferreira ao escrever que aquela Associação declarava “apoiar sem reservas a ideia”, ou então que “ela [a AMIPAUL] se prontificou a dar o seu apoio na busca de fontes de financiamento para a concretização dessa ideia.”
Vejamos: passam hoje 16 anos após este texto ter sido escrito e a situação mentém-se inalterável. Ou seja, nada foi feito para recuperar/preservar essa construção centenária e hoje o monumento está a cair de podre. O máximo que conseguiu foi ver as lentes da sua lanterna desactivadas e substituídas por modernas lentes à energia solar, instaladas ali mesmo nas imediações.
A última vez que lá estive foi em Agosto de 2007 e era triste constatar que já não se pode, com firmeza, subir as escadas metálicas da torre do farol porque há o perigo de haver uma derrocada. Igualmente triste é ver o estado em que se encontra a casa dos faroleiros, edifício contíguo ao farol, outrora com 8 divisões, hoje quase que não tem paredes interiores, nem cobertura.

Por tudo isso, tenho todos os motivos para manter a minha atitude céptica e esperar até o dia em que meus olhos me forçarem a acreditar que alguma coisa foi feita para recuperar o farol (se esse dia vier). Mas... há agora uma réstia de esperança e esta quem ma traz é a estrada Porto Novo / Janela que passa bem pertinho do farol. Aliás, foi na sequência de uma visita às obras dessa estrada que o ministro Manuel Inocêncio falou na intenção de se vir a fazer alguma coisa para recuperar o que ainda pode sobreviver do farol.
E todos sabem que, rentabilizando aquele espaço, pode-se aproveitar aquela fantástica vista que se tem sobre toda a costa Norte de Santo Antão, com o ilhéu dos Bois logo ali no sopé. (logo aqui ao lado, também)

Características gerais do Farol
Nome:
Farol Fontes Pereira de Melo
Localização: Pontinha de Janela, Noerdeste Santo Antão
Início Construção: 1884 (começou a funcionar em 15/05/1886
Torre: 10,7 m
Lanterna: 4,5 m, assente numa base metálica com 3 m de diâmetro
Alcance: 27 milhas

Fonte: FERREIRA, R.P, in Ekhos do Paul, Abril/Mai/Jun, pp 36,37,38

Há dois anos escrevia aqui o meu primeiro post sobre o farol. E se daqui há dois anos tivesse que publicar outro post a dar conta das obras de recuperaçã0?!! Mas prefiro deixar accionado o meu desconfiómetro até meus olhos ordenarem o contrário.

02 outubro 2008

Vultos da Ilha

João Morais

Hoje, 2/10, completa o primeiro centenário do nascimento de João Baptista de Morais, mais um ilustre filho de Santo Antão. Para assinalar a efeméride a Direcção do Hospita Regional da ilha, que ostenta o nome desse grande médico, organiza hoje alguns eventos para relembrar o seu patrono. De entre as actividades destaca-se a apresentação do livro "Memórias de João Morais", por Pires Ferreia.

Mas, quem foi João Morais? Eis alguns dados bibliográficos:

"João Morais nasceu a 2 de Outubro de 1908, no Paul. Fez os estudos secundários no Liceu Infante D. Henrique, no Mindelo, formou-se em medicina na Universidade de Coimbra, em 1936, e fez ainda os cursos de Medicina Tropical em Lisboa (1937), de Medicina Sanitária em Coimbra (1941) e o curso de Malariologia (1955), como bolseiro da OMS, nos Camarões.
Trabalhou nas ilhas de Santo Antão, Santiago, Sal e São Vicente, foi professor de liceu, juiz substituto do tribunal de Sotavento, Vice-presidente da Câmara Municipal da Praia, e na vida associativa foi sócio da Associação Académica de Coimbra, presidente da Comissão Administrativa da Rádio Clube de Cabo Verde e depois do Grémio Recreativo do Mindelo.

JM Faleceu a 26 de Outubro de 1995 na cidade do Mindelo e nesse mesmo mês foi atribuído o seu nome (Dr. João Morais) ao Hospital da Vila da Ribeira Grande, inaugurado poucos dias depois da sua morte."

Fonte: Inforpress

29 setembro 2008

100º Post

Este é o post nº 100 do Sinta10. Há cerca de dois meses de completar 3 anos, uma centena de postagens não constitui, certamente, motivo de celebrações. Com um ritmo bastante irregular e descomprometido, este canto vai esgrovetando como pode a sua ilha querida. Uma missão que, decididamente, não pensamos abandonar tão cedo, pese embora algumas hibernações sazonais.

17 setembro 2008

Estritin

Esta é mais uma das maravilhas escondidas de Santo Antão.
O nome do recanto é Estritin (vamos traduzí-lo por Estreitinho). Fica situado nos confins da ribeira de Caibros, vale da Ribeira Grande. Depois de passar pelo povoado, infiltra-se pela ribeira adentro e ao fim de uns 20 minutos a subir... huf! que maravilha! Uma linda cascata, ladeada por montanhas que atingem o céu. A água da cascata é fresquinha e cristalina. Não se pode resistir e um mergulho torna-se imperativo. Mas as maravilhas são tantas! Mesmo ao lado da cascata, do lado esquerdo nasce uma outra água, esta totalmente diferente: de coloração alaranjada (férrea), deixa por onde passa um rasto multicolor. Nas grutas por onde escorre forma-se espantosos estalactites e estalagmites. Ao alcançar este esconderijo a adrenalina fica em alta. Um misto de encanto e medo invade o visitante que se assusta com o autoritarismo das rochas a nos escoltar com um olhar medonho de cima para baixo.
Uma descoberta verdadeiramente arrojada (ou o local não se chamasse Estritin e fosse mesmo inrrojód). Mais palavras p'ra quê? As imagens são soberanas.











Fotos: BCN

12 setembro 2008

O vale, a chuva e o verde

... e porque será que o cabo-verdiano anseia tanto pela chuva? A minha Ribeira da Torre, que neste momento bem se poderia chamar Ribeira d'Água, já é tão linda sem chuva, ki fari go...


Fotos: BCN

10 setembro 2008

O vale, o verde e a (falta de) estrada (II)

Para não variar, o meu vale voltou a ficar isolado. A chuva fez correr muita água e a indefesa estrada (?) de terra batida correu para o mar. Mas desta vez a vítima não foi apenas a rodovia. Árvores desabaram em cima dos cabos de electricidade e o vale ficou dias sem energia. Agora, dizem, o vale vai ter estrada asfaltada, uma espécie de cobra negra, como diz o Paulino, a desfilar lânguida por entre margens e encostas verdejantes do vale.
Realmente é algo estranho, ver uma cobra, ainda por cima pretona, a deambular pelo vale adentro. Cobras que, a existirem pelas bandas, só se forem minhocas ne tchon de bananeira.
Para complementar (re)leia este post

Linda

Acabo de regressar da ilha. A chuva disse lovód nome Déus, os campos estão pintados de verde, a terra tem agora outra cheiro e outra pinta. Vi cascatas, cachoeiras, aga na rbêra. Ah, minha ilha é linda, lindíssima. Sintanton, como te quero! quero-te tanto... assim como o Abrão quer Santiago! Ahhh, e és linda, muito linda, lindíssima.

01 agosto 2008

Casta de cosa ê ess?

Acabo de ouvir isso na RCV, num despacho do jornalista Marco Rocha:
Duas cabo-verdianas em Portugal foram proíbidas, pela Junta de Freguesia de Benfica, arredores de Lisboa, de falarem crioulo no seu local de trabalho, por "perturbarem os colegas que nada entendem".
A medida foi prontamente contestada pelas visadas e pela Associação SOS Racismo que acham ser uma atitude xenófoba. A uma dessas meninas, inclusivê, já foi instaurado um processo disciplinar.
O autarca em causa contrapõe "argumentando" que já recebeu cerca de 5 queixas de colegas que nada entendem e, perturbadas, desconfiam que as moças possam estar a falar delas. Por isso, "a medida APENAS visa salvaguardar o bom ambiente no trabalho".
E se as moças estivessem a falar inglês? chinês, alemão???!!!!
Ulalá, já começo a ficar receoso: É que por cá, no meu trabalho, sempre que'm te ratchá nhe criol escferruntchent de Sintonton, muitos dizem não me entender. Estarei a perturbar alguém?!! Estou preocupado. (ah, qui nada moço, descansá, bo te ne bo terra)

Ponta do Sol, Pescadores e Cavala

Começa a vigorar a partir de hoje até 30 de Setembro próximo no país o período de defeso para a cavala preta. A medida faz parte de um conjunto de acções tendo em vista a “conservação e exploração racional dos recursos haliêuticos, em prol do desenvolvimento sutentável do sector das pescas”.
Apesar da medida pertencer a um pacote aprovado em 2005, portanto há já 3 anos, parece que muitos ainda não se consciencializaram do quanto é importante e necessário que haja um período interdito à pesca de certas espécies, quanto mais não seja para que as mesmas possam reproduzir-se “em paz” e garantir assim a continuidade da espécie.

É certo que qualquer medida restritiva do género tende a chocar com intereses económicos, sobretudo quando se trata das comunidades piscatórias que muitas vezes têm poucas alternativas de sobrevivência. No entanto, vista numa lógica de medio ou longo prazo, apercebe-se da utilidade de tais medidas.

A cavala é uma espécie bastante comum nos mares de Cabo Verde e, segundo o INDP, o cerco a essa espécie é ainda bastante expressivo nas comunidades de São Pedro (São Vicente), Palmeira (Sal) e Ponta do Sol (Santo Antão).
Ah, sim, Ponta do Sol! Falar de Ponta do Sol implica falar de pesca, implica falar, já agora, de cavala. Na região Norte da ilha não existem muitos ancoradouros de botes pelo que se pode dizer que a vila da Ponta de Sol se afigura como um grande bastião de pesca dessa região e, quiçá, de Santo Antão. Na vizinha vila da Ribeira Grande, não se pesca, pese embora situar-se a beira-mar. A propósito, abro um parentesis: há alguns anos, por altura do festival Sete Sóis Sete Luas, estava Tito Paris em palco, quando dedicou a música mar d’ilhéu “a todos os pecadores desta vila" (Ribeira Grande). E aqueles que estavam mais perto do palco gritaram em uníssono, ei e’n den pescador. O artista, apesar de parecer incrédulo, teve que reformular a dedicatória.

Mas voltando à vaca fria: é facil adivinhar o apuro dos pescadores da Ponta do Sol, neste período em que é proíbida a pesca da cavala. Arrisco mesmo a dizer, eu que não sou do litoral, que falar em pescado na Boca de Pistola (foto) quase que implica falar de cavala, caso contrário, hoje mar e’n dá pêxe. Mas a entrada hoje em vigor da medida, como sempre, não deixou os pescadores solpontenses indiferentes. Segundo o nosso HF, os mesmos estão chatiados porque a medida lhes apanhou de surpresa e reclamam porque deviam ser avisados com antecedência. (!!!???)

De qualquer forma todos devem empenhar-se no sentido de garantir o defeso dessa e outras espécies durante o período estipulado. Só assim poderemos garantir melhores dias para as gerações vindouras. Se medidas do tipo tivessem sido tomadas no passado em relação a outras espécies, talvez eu e meus colegas ainda tivéssemos conhecido na ilha esta espécie, por exemplo.
Saudosismos a parte, resta-nos desejar boas férias à cavala.

Obs: A cavala é tão popular pelas bandas da Ponta do Sol e zonas limítrofes que um dia nha Lurdes, lá de Selada, mandou o criado Ivanildo (moço lá de Ribeirinha Curta) ir comprar peixe no carro que vinha buzinando. Ivanildo chegou na viatura e ficou indeciso porque não viu “peixe”. Lá acabou por fazer a compra e regressando à casa rematou: "Nha Lourdes, mi’n otchá pêxe ma e’m trezê cavala”

19 julho 2008

Burro na grelha

O burro sempre fez parte do quotidiano do camponês caboverdiano. De uma utilidade extrema, este animal revelou ser, ao longo dos tempos, um grande aliado dos habitantes das ilhas mais rurais de Cabo Verde, sobretudo como meio de trasnporte (de cargas como pasto, géneros alimentícios, cimento, areia, água, pessoas etc.)

Para se ter ideia da importância do elmara, há alguns anos este animal foi alvo de uma das propostas mais inusitadas vindas da classe política nacional. Um aspirante a autarquia da Boa Vista falou na possibilidade de exportar burro da Ilha das Dunas para outras paragens (Europa? América?)

Agora, os tempos são outros... a conjuntura é outra. Tud cosa já sbi, transportá gente ta cór, quanto mais burro. Mas não é que a proposta do então candidato pode vir a ganhar sentido. Já que burro agora ti ta bai pa grelha, quem sabe venha a surgir outras ideias, digamos mais requintadas, tipo: exportar burro... ENLATADO.

Este bla blá "asnento", diga-se, me ocorreu a propósito de um post de uma cabrera. A não perder Confira aqui.

18 julho 2008

Vultos da ilha

Luis Romano
Nasceu a 10 de Junho de 1922, em Santo Antão. Estudou em São Vicente e trabalhou na sua juventude nas ilhas de São Nicolau e sal. Foi da sua vivência nestas ilhas, nos anos de fome e Fascismo, que se inspirou para escrever o célebre romance Famintos, publicado no início dos anos 60.

Coincidentemente, Luis Romano e Januário Leite nasceram no mesmo dia - 10 de Junho (dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas)
Luis Romano ainda é vivo e reside em Natal, Brasil, desde 1962.

Símbolo
O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir"
navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".

(Luis Romano, Clima, 1963)

04 julho 2008

Queijo

Ao referir, no post anterior, à "casca" de queijo lembrei-me das farras que fazíamos na ilha: queijo com pão, comprado lá na casa de Nha Guida. As quartas-feiras aguardávamos ansiosos a chegada da senhora que ia à Lagoa abastecer de queijo fresquinho para depois comprarmos a 120 escudos unidade.

Hoje o cenário está mais complicado. Chuva escasseia-se, pasto nada, queijo nem vê-lo, ou se há, o preço dispara. O cenário é tão desolador que a fábrica de queijo de Porto Novo teve mesmo que interromper a actividade, como se relata aqui.
Ontem a chuva falou mantenha. Oxalá seja o prenúncio de um bom ano agrícola para que possamos ter pasto à-vontade e queijo inguêrrnel, quanto mais não seja para não voltarmos a contar estórias como esta.

03 julho 2008

VIVA QUEL VIM (Memórias de escola primária)

Retomando aqui as memórias que vieram à tona através dos comentários de alguns leitores (Mnininha de Puvoçon, Boltchor, Vera...) sobre o saudoso "viva quel vim"... ´

Era a meta que todos auguravam alcançar: transitar de classe para poder integrar a comitiva que no dia x sairia de porta em porta à cata de quel bolo, quel pipoca, quel torresma. Por isso era imperativo estudar e aprender a lição porque, caso contrário, bo'n dava passá, logo bo'n dav dá viva, logo bo tava fcá sem quel fétin novo.
O empenho era (quase) total. Todos queriam estar na mesa do exame a encarar os dois professores. E aqueles que fossem "cabeça dura" eram-lhes pedidido que sentassem em casa semanas antes do exame (coitados, ficavam retidos no crivo da sebatina: tabuada (8 X 7 = ???), gramática, Meio Físico e Social...
Aqueles que ficassem "apurados" morriam de ansiedade e a conversa era outra: quem que ti te bé inzemnób? É Dona Joana. uhau, ela é ménsinha! E'n ne nada, é senhor Antão, onhémén, el é mau!

No dia do exame: cólê texto que bo dá? mim e'm escolhê "A chuva amiga" e bo? Mim foi professora que escolhe'm nhe texto, e'm dá "Maravilhas do Mar. E bô? mim e'm escolhê "O cabritinho Obediente". Uahh, quel texto lá é sébim, mim e'm te elel etê de cor: (...) conta-se que um dia a mamâ cabra antes de sair da casa disse ao cabritinho: - fecha a porta com a tranca e não abra a ninguém!
Djon, cuitód, ele reprová ne mesa de exame. Quel lá gora é triste.

Ninguém queria ter, em Julho, um desfecho tão trágico. Por isso, a preparação começava desde Outubro do ano anterior e todos os detalhes eram levados em conta. Outros, desconfiados e supersticiosos, apostavam em plantinhas com tendências visionárias: pegavam nas folhinhas de uma planta, que agora me escapa o nome, e colocavam no meio do caderno. Se esta murchasse, hum, mau sinal! Mas, se ao contrário, permanecesse viva, hey... bons ventos.!!
Mas também era expressamente proíbido comer "casca" de queixo porque, de um potencial triunfador, poderíamos ir para o banco dos "cabeça dura". Afinal, as vitórias conquistam-se com muito trabalho e as vezes um pormenor é importante, hehehe. Não fôssemos transformar no fim do ano numa "raposa" devido a uma simples manhenteza como uma raspa de queijo, Deus defendê!

Tive a sorte de Dá viva ao longo dos quatro anos de escola primária. Assim que terminei a 4ª classe, em 1994, extinguiu-se, com a Reforma, o Viva quel vim. E morreu parte do encanto que envolvia todo o ensino primário. E nunca mais se ouviu cantar: manzinha dzê, quem fcá roposa, ali ca ta entrá! purrli? purrlá, 4ª classe ca brincadêra.

30 junho 2008

Vultos da Ilha

Sinta10 começa hoje uma nova rubrica que pretende (apenas) lembrar os grandes homens que se brotaram da ilha. Este primeiro post é dedicado ao poeta Januário Leite (este nome foi muito evocado nas últimas semanas por causa do caso que se estoirou no liceu que tem seu nome). Mas aqui a nossa música é outra. E a escola também... já agora!

Escola à antiga (soneto de Januário Leite)

Os óculos no nariz, bem cimentado
por densa massa de rapé imundo,
o rosto ora boçal, ora jocundo,
de tímidas crianças rodeado,

antigo professor está sentado
no meio dum silêncio o mais profundo,
solene aspecto - de aterrar o mundo,
pesada palmatória sempre ao lado.

A lição é de história. Já casmurro,
o mestre puxa a caixa de rapé.
O aluno lê: Dom Pedro quinto...um murro!

A tosca mesa abala!...o aluno em pé
encara o mestre...Que disseste, burro?
D...Pedro... V!...- D. Pedro V é que é!...

Januário Leite nasceu na Vila da Pombas, Paul, a 10 de Junho de 1867. O destino quis que morresse exactamente no dia do seu aniversários, isto é, a 10 de Junho de 1930. Autoditacta, esse grande poeta foi também, por algum tempo, professor primário e faroleiro em São Vicente.

16 junho 2008

PAXANHA

O mês de Junho é simbólico para Santo Antão. É festa... só festa que começa no dia 13 no Paul e termina em Châ d'Igreja no dia 29. É o mês em que se começa a preparar as sementeiras e esperar pelas chuvas. Os espíritos da ilha estão mais alegres, o humor sobe de tom...
Aproveitando esta onda, Sinta10 traz mais pirraça contada pelo meu irmão Jair. Mais uma vez , embora com a devida vénia, Djédjin, vou recomendando "nhó boca ca está lá"

Sinto-me saudades da minha Ribeira da Torre – da sua aura fresca que nos suaviza, das suas frutas (banana, papaia, manga, goiaba, abacate,) que se comem abundantemente, das peladas no campo de lugar de Guene, das farras debaixo das mangueiras, das menininhas bonitinhas, das gentes bem-humoradas…enfim, saudades de todas as coisas salutares que por lá abundam.
Ai-ai! De momento, não é este o meu propósito, estar a enumerar um ror das boas coisas que me faz saudoso da ilha, do meu berço Ribeira da Torre, mas sabe é impossível não sentir saudades. O meu objectivo, por ora, é compartilhar contigo, amigo leitor, as estórias divertidas - “as boas alegrias merecem partilha”, não é?
No descanso das horas vagas, geralmente depois do almoço, recordo-me das estórias e das invenções das gentes bem-humoradas da ilha. Hoje, as peripécias e as invenções de Paxanha resolveram invadir o meu pensamento. Esta personagem é apenas uma das muitas figuras notáveis no engenho de pirraças, gaiato, com um senso de humor deveras fora do comum.
Paxanha, homenzarrão de lá de Cabouco de Peregrinas, alto claro com uns bons 90/100kg - um texugo, bebedor do seu grogue como um bom santantonense, bom garfo - ainda bem, porque se não os muitos copos já o tinham mirrado o corpanzil que ostenta – pois é, Paxanha é um exímio voraz. Certo dia, na altura das sementeiras, fomos ao Lombo de Santa cumprir a missão de todos os anos - enterrar o milho, ainda que na terra ressequida, e esperar pela graça de Deus. Levamos da fértil Ribeira da Torre, mandioca, banana verde, fruta-pão, feijão ervilha seco, toucinho e demais ingredientes necessários à uma feijoada que faz delícias ao estômago. Uma senhora de lá de Lombo de Santa, muito meiga e amiga do meu pai era a encarregada de nos preparar aquele banquete – almoço feito para nove enxadeiros, mas que sobrava para alimentar Lombo de Santa inteiro, se não fosse o ímpeto destruidor deste homem - Paxanha COOOOOMEEEEEU, até que não conseguiu levantar, ficou prostrado debaixo da afável mangueira que nos serviu de sombra, não mais conseguir dar um kova de milho - um trabalhador perdido pelo resto do dia. Era um gozo, em uníssono nos tud tava dzé – "kmida kmê Paxanha", este nem nos dava ouvidos.
Como um notável comedor, ele também é um devorador de grogue. Um dia, ele panhá um fuska lá no Stakay que ficou completamente bragundo, pior que Frénk du Pi depois daquela krascada em o Rabo da Bruxa, lembra? No regresso à casa, a meio caminho, entrou num curral onde criava umas cabeças de cabras. A julgar ser este a sua casa, entrou sorrateiramente, ainda que aos tombos e deitou junto à uma cabra. Após algum tempo, a carente cabrinha enrosca no nosso perdido, este crendo ser a sua verdadeira companheira do lar, sussurra – "Méria txgá pralá, bô ti te ingôtxém!!"
Paxanha é deveras uma personagem versátil. É capaz de tudo um pouco. Este facto que te vou contar é assunto sério, por favor não gracejas, o meu pai merece todo o respeito, homem honesto e trabalhador de lá de Ribeirinha de Jorge, respeitador e respeitado por todos, palavra de honra! Só Paxanha, para brincar com coisas sérias. Não enfadonhas, amigo leitor, conto já a brincadeira de mau gosto, tramado pelo nosso gordo insolente PAXANHA. Num dia infeliz, meu pai teve a má sorte de cair de um pé de fruta-pão duma altura de pelo menos cinco metros, (os ramos desta árvore não são muito fortes, quanto menos, quando estão prenhes de frutas, o ramo desprendeu e pumba), como deves calcular meu mestre não ficou com o corpo sadio, apanhou muitas pancadas, sobretudo nas costas, quem o melhorou foi um daqueles curadores natos de lá da ilha do Chiquinho, já não me lembro o nome deste bendito homem, alto, magro, meio desengonçado, cabelos ruivos – um sueco. Através de um método incrível, ele conseguiu tirar ao meu pai vários hematomas – sangue pisado nas suas costas que o atormentava.
Passado algum tempo do incidente, o maldito Paxanha inventou e perguntou o seguinte ao meu pai – "ó Maika, bô fi David dzé kma bô kei dun asa dun avião?" Brincadeira de mau gosto, papá optou pelo silêncio a pensar como é que um filho foi capaz de dizer tamanha asneira. Quando chegou em casa confessou isto à minha mãe – esta que conhece muito bem os filhos que educou e também as diabruras de Paxanha, de pronta negou que o bom David fosse capaz de dizer tal disparate, categoricamente afirmou ser invenção de Paxanha. Meu pai não se convenceu e ficou mesmo com raiva do inocente filho. Certo dia, minha mãe, a zelar para o bem-estar do lar, encontrou o nosso visado e teve que lhe perguntar se deveras David lho disse que Martim tinha caído de uma asa de avião. Paxanha com ar de sonso respondeu – "amoje kondera, foi binkedera minha ôme, kome, Maika kerditá?" Minha mãe pediu-lhe então que fosse desenganá-lo porque anda convencido que foi da boca do coitado David que saiu a maldita frase e por isso anda descontente com ele, muito descontente.
Paxanha felizmente aceitou o pedido e numa ocasião convenceu o meu mestre que tal brincadeira foi invento seu. Paxaaaanha! E agora papá que lição? Confie sempre na sua família, porque ela é guardiã, está bem?

13 junho 2008

Santo António

Hoje é dia de Santo António. Hoje Paúl está em festa. Hoje há tambores, há missa, há procissão, há apitos, há bailes nos terraços e nas boites e, sobretudo, há bebêdêra... sim porque os santos tornaram-se todos pagãos!

Hoje lembrei-me de António de Chica com a sua Baiana (quel tamboron), de Jorge Ciric, de Jorge kêremba, de Bétchinha de Nhe Djoni, de Luciano Chantre... todos outrora, ou ainda, exímios tocadores de tambor. Mas lembrei-me também do Tutú de Selada com o seu navio. Ah, essa figura que tantas saudades deixou, ele e as suas pirraças! Essa figura especialista em diversas artes, por exemplo, em chorar os mortos. A este propósito, um dia Tutu chorava amargamente a morte de um ancião de uma das zonas de Ribeira da Torre, enquanto ultimavam os preparativos para se sair com o enterro. A determinada altura solta um "berro" profundo e demorado e quando termina a choradeira murmurou baixinho: até que emfim já bo rancá, desgróçod!!? Só que o murmúrio saiu tão alto que todos que estavam próximo ouviram.

Hahah, nessa divagação toda acabei por esquecer que estava a escrever sobre festa de Santo António. E, pior, acabei por levantar a alma do coitado Tutú.

27 maio 2008

Memórias de Puvoçon


Puvoçon (vila da Ribeira Grande) é onde estudei todo o secundário e resto do primário, isto depois de ter deixado, ao término da 3ª classe, a escola nº 9 de Lugar de Guene.

Da fresquinha casa, cuja cobertura de palha servia de ninho às galinhas (mas não era essa a escola do Póline), fui para a Escola Central, mais tarde batizada Escola Roberto Duarte Silva. O ambiente era diferente: muitas crianças, muitos professores, meninos com ares citadinos a contrastar com nós os "provincianos". Por isso, não raras vezes éramos gozados: "bsot ê de cómp", bsot ê uns cmê ovo", o que ocasionalmente culminava em brigas, tornos de pescoço ou socos.

"Bsot ê de cabeço, de cómp..." diziam. E nós : "Bsot te morá num côtche" (isto, numa alusão à orografia da vila. É que, circundada por montes, a urbe fica no meio dessas rochas o que nos levava a estabelecer uma analogia, bem depreciativa, com o cotche, recipiente esculpido em pedra/rocha e que serve de "prato" aos porcos.

A criatividade de uns e de outros ia buscando novas metáforas para qualificar o outro lado, consoante a proveniência. Eram tantas criações, mas dessa não me esqueço:

Certo dia, um coleguinha meu, bem busód, respondendo à uma das provocações de um menino de Puvoçon que zombava da sua proveniência, saiu com esta: "lembrá ei (a vila) ê único lugar que te ixisti, ondê que defunto ê que te fcá de cima de gente vive". Levantando o olhar em direcção ao cemitério do Alto de Sâo Miguel, que fica bem lá no alto (canto superior direito da foto), o busód soltou uma gargalhada ao mesmo tempo que desatava a correr, enquanto o interlocutor permanecia pensativo, talvez em busca de uma réplica que pudesse estar à altura.

21 maio 2008

PIRRAÇAS ... made in Sinta10

Depois de um período de abstinência (ou será abstenção?) Sinta10 regressa, desta vez com uma pirraça aqui contada pelo meu irmão Jair . Como diria o outro, "nha boca ca está lá"!
Ei-lá:
Falha na avaria
Ribeira da Torre sempre foi um lugar que recebe gentes de várias proveniências, (de Figueiras, de Jorge Luís, de Santa Isabel, de entre outras), lugares onde a vida é mais difícil, dado ao isolamento, pouca oportunidade de trabalho, à pobreza, etc. etc. Para quem não sabe, Ribeira da Torre, é um dos profundos vales de Santo Antão, pertencente ao concelho da Ribeira Grande. Caracteriza-se pelo verde copioso (que se estende em toda a sua dimensão) em virtude da abundância de água, um dos melhores geradores de banana em Cabo-Verde, produz muita cana para o fabrico do “famoso grogue”, muita fruta-pão, enfim, goza de grande riqueza e diversidade de produtos – há muito labor agrícola durante todo o ano, daí a justificação para a sua procura em busca de um dia de trabalho e uma vida que seja um pouco mais "eskéntxin e contente".

Ribeirinha de Jorge, particularmente, tem recebido algumas dessas pessoas, lembro-me do Fabal, do Pé de Rót, do Pé de Aranha, (estes numinhos são-lhes postos pelos rapazes buzód da zona), do Nelson e do Meteje de Deolinda, do Péd Cabeça, entre outras figuras que de certo modo alegravam e alegrem a zona com as suas peripécias, cada um a sua maneira.
Essa é boa, atente-se amigo leitor, é do Fabal.
Um belo dia este rapaz de Figueiras, magro, de estatura média, semblante sempre preocupado, “cabistonto” como diria o Mia, encontrava-se muito aflito, pois que o seu rádiozinho deixara de funcionar. Na sua aflição, passava ao redor da sua casa o Amílcar de Rozére – Mizguin, que lhe perguntou a razão daquela apoquentação. Em jeito de queixume, respondia o Fabal – moço eme tava ei te interté que nhé rédiin, de repente el txá de toká. Mine sebe u ke keme te fezé, jame ebril ma mine sebe dondé kel falha está.
Mizguin, responde-lhe com ar muito sério de quem desejava ajudá-lo na resolução do seu problema – rapaaaajje, kel falha deve estód nekel veria, ebril bo xpiá. Fabal, arreliado disse – ó repéz, go bo ti te ben dzeme kese falha está nese veria, se jáme ebril eme xpiel, el te drete? Mizguin, pertinaz, insiste – jame dzéb ke kel falha está ne kel veria! Kondé ne vida bo kunsé veria dun rádio…vinde de lá dekeje konpe de Fguéra? Se kel veria tivese drét, rádio tava te toká dritin!
Fabal, arreliado como um cão raivoso, explode - bzôt de Rbera do Tore bzôt tem menia de da pe xperte ma nada bzôt sebé, apoje ese véria te méje dret ke bo kebeça, esse falha deve estód note koza ke nen ne véria, ke ese veria te dritin!

Merci, Djédjin

06 maio 2008

Esgrovét

Na sua missão de tentá esgrovetá Sintédez de lés a lés, hoje Sinta10 desenterra (literalmente) um leão que jaze algures na Vila das Pombas, Paul. Esta imagem que conta já décadas de existência, foi resgatada da saudosa Ekhos do Paul, revista trimestral editada em Santo Antão nos inícios dos anos 90.

Eis o texto que acompanha a fotografia:

"A natureza tem coisas curiosas. Pena é que nem sempre se lhes da o devido valor. Este leão (ver foto), petrificado, em posição de guarda e de vigilia perene do ancoradouro do Paço e que sobreviveu a séculos de fustigante mar bravio e do vento de nordeste, foi soterrado, em 1990, com os trabalhos de terraplanagem do novo campo de futebol na zona de -Antonio Soare, no Paul. Fica, no entanto, a
imagem para a posteridade. Ou será que ainda é possivel a sua recuperação? E se os jovens fossem lá tirar a prova, com o apoio, é claro, do Município?"

In Revista Ekhos do Paul, nº 2, Abr/Mai/Jun 1992, pág 46

Foto: Rosendo Pires Ferreira (RPF)

29 abril 2008

150 anos da Praia com olhar sampadjud

Hoje, Sinta10 contorna um pouco a sua linha editorial, assente em esgrovetá Santo Antão de lés a lés, para escrever duas linhas sobre a Cidade da Praia, que completa 150 anos.


Cheguei à Praia em Outubro de 2002. Na altura a cidade tinha 144 anos. Cedo interessei-me por conhecer melhor a capital do país, andei muito a pé, conheci pessoas de diversas proveniências, fiz solilóquios junto ao mar (como aquele nosso poeta) ; quis partir mesmo sabendo que tinha que ficar; enfim tive mil sentimentos. Aprendi a amar a cidade, e hoje, depois do meu Sinta10, aqui é onde mais gosto de estar.
Aprecio o que de bom a Praia tem para oferecer aos habitantes e, embora possa parecer pouco, a Praia tem muitos encantos.
- A nadar já fui duas vezes ao Ilhéu de Santa Maria (que bom! de certeza que lá irei mais vezes)

- Fui muitas vezes de manhã à Quebra Canela (há muito que não vou, não sei bem porquê, mas adoro a praia)

- Vou à tardinha ao Plateau e curto sem manhã a azáfama que inunda as principais ruas do bairro (mesma coisa observo no Sucupira)

- Enfim, coisas aparentemente banais... (mas tenho a mania de querer ver tudo em quase nada)

Gosto da cidade... e nestes 6 anos de convivência com a velhinha (?) que agora faz 150 anos, já aprendi muito. Sim porque gosto de escutá-la, apreciar o seu semblante, conviver com ela... Parabéns à Cidade da Praia
Foto: expressodasilhas.cv

22 abril 2008

Contos e factos

Nasci gósterdia! Não encontrei nada, não cheguei a ver nada, mas ouvi (e oiço) muita coisa. Adoro sentar com os velhos da ilha e escutar as histórias dos anos da sua juventude. Vivências e peripécias da década de 30, 40, 50... me fascinam!

A Sova (contingências de um castigo precoce, entretanto, não consumado)

João Bento, 13 de Dezembro 1945

“Estou indo para a Ribeira, para não ter filho de Antonin, nem de casado, nem de solteiro, para não 'danar' a minha família”


Esta foi a resposta que a Mariana deu ao seu pai quando se viu obrigada a apresentar uma justificativa para a sua largada de João Bento, zona algures no interior do concelho do Porto Novo. O Senhor João Martinho, pai da Dona Mariana, era um homem desaforado e pouco dado a conversas. Nunca se predispunha a ouvir explicações antes de aplicar uma sova de chicote com vara de marmelo a um filho. Desta vez, rompendo um pouco com o hábito, chamou a filha e, com um olhar fixo numa parede, pediu-lhe explicações acerca daquilo que momentos antes ouvira da boca de vizinhos: a Mariana estava de partida para Ribeira, onde passaria a residir, deixando assim o Cómp de Porto.
Ouvida a explicação, Nhô João Martinho calou-se. Por longos minutos pai e filha permaneceram em silêncio, sem se olharem um para o outro. O olhar de João Martinho continuava fito na parede, enquanto Mariana não se levantava a cara do chão.
De repente o pai quebra o silêncio e com uma voz forte e acusadora disse: - sai da minha presença… afinal não é o que queres?
Mariana saiu pé ante pé, tão devagar que parecia recear uma investida do próprio solo que pisava, contra ela. A partida para a Ribeira devia acontecer dentro de três dias, num sábado. Por isso, até a largada, Mariana não queria que houvesse mais motivos para alimentar a ira do pai.
Como que a querer aliviar um pouco o peso da consciência, Mariana pegou num balaio e caminhou em direcção à Merada de Ladeirinha, à cata de feijão.
Estava-se no mês de Dezembro, ainda não havia muita produção, e a apanha de feijão era um processo demorado, já que se ia apalpando e escolhendo as vagens cheias das que ainda deviam permanecer na mãe.
A Mariana tinha deixado em casa o filho de 1 ano e 11 meses. Já passava do meio-dia e ainda não tinha regressado à casa. O pequeno Joãozinho não parava de chorar. A dona Gertrudes, mãe da Mariana, acalentava-o mas sem efeito. Cada vez o petiz chorava com maior intensidade e não dava sinais de querer interromper essa sua tarefa.
Há três metros de distância Nhô João Martinho encontrava-se sentado na soleira de uma portinha que dava para uma despensa contígua à uma cozinha em estilo funco, onde se preparava os matares-de-injú. De pernas esticadas, preparava algumas gavelas de cordas de carrapato para uma amarração de palha de milho que tinha agendado para o dia seguinte com alguns trabalhadores em Fajânzinha de Trás, uma merada algures em Ribeira dos Bodes. Concentrado no seu afazer, João Martinho parecia não estar a ouvir aquele choramingar do neto. Ou então, se ouvia, não esboçava nenhum sinal que denotasse alguma perturbação causada pelo nhéc nhéc nhéc ininterrupto do pequeno. Enquanto permanecia pachorrento na sua tarefa, a esposa, com uma calma impressionante, ia fazendo de tudo para que o netinho parasse de chorar, sem entretanto conseguir os seus intentos.
De repente, o estado das coisas muda. Nho João Martinho, que até então tinha se mantido no seu canto, levanta-se com fúria e dá duas voltas pelo corredor. Pela forma como o fez, adivinhava-se que algo pouco simpático estaria prestes a sair das entranhas do velho. E depressa se confirmou a suspeição. Ao fim da terceira volta pelo corredor, o homem lançou um forte suspiro, que as suas narinas pareceram soltar fumo qual turbinas de um trem movido à carvão. Dona Gertrudes, que bem conhecia os sinais do seu marido, começou a ficar tensa: - “Meu Deus, este homem já não está bem, o que é que ele estará a pensar, hein?” – suspirou Gertrudes.
E mal a mulher formulou o seu raciocínio, nho João Martinho sentenciou: “Dá-me cá esta merdinha, vou ver se comigo ele não pára com esta berraria”. E sem coragem de se opôr à ordem do marido, Gertrudes entregou-lhe o neto e correu para dentro da casa para fazer orações. Mas de nada iria valer as preces da mulher. João Martinho pega no pequeno chorão, leva-o para o cume de uma parede, ata-o as perninhas com uma das mãos e dependura-o de cabeça para baixo. Xpundród qual cabrito prestes a ser pêrrnód, o menino intensifica a berraria, fazendo lembrar os últimos instantes da vida de um pequeno capóde quando solta os apertados berros por entre a corda de piadura e a faca do matador. Entretanto, no exacto momento em que João Martinho se prepara para aplicar a primeira chicotada ao menino, Mariana surge em frente ao corredor com o seu saco de feijão à cabeça. Desesperada, larga a carga e grita em alvoroço: - “se o senhor vai fazer aquilo ao meu filho, é melhor que o deixe e faça comigo tudo o que quer fazer com ele.” À súplica da mãe, o velho ripostou: - “na verdade, é contigo que eu faço isso”. Mas a aflição de Mariana deve ter trazido à lembrança do velho a história da legítima mãe no Julgamento de Salomão. Sem soltar mais qualquer palavra, João Martinho largou o chicote e entregou o filho à progenitora, retomando, de seguida, a tarefa que havia interrompido.
Enquanto isso, Mariana, sentindo-se ameaçada com a ira do pai, arrumou de pronto os seus parcos pertences, meteu-nos numa pequena maleta que a sua madrinha lhe tinha oferecido e abandonou a casa dos pais. Foi então morar numa pequena casinha da sua prima, a três quilómetros de distância, numa zona chamada Chã Vermelho. E ali permaneceu com o filhinho até ao momento da sua largada para Ribeira, o que viria a acontecer três dias depois.
Mariana acabaria então por deixar o Cómp de Porto com uma justificação mais forte do que aquela que sustentara quando fora instada pelo pai a justificar a sua decisão de mudar de região. O “partir para Ribeira para não ter filho de Antonin”, de quem se dizia ser bruxo, dava lugar à uma espécie de obrigação em se retirar por ver a integridade física dela e do seu bebé ameaçadas após a atitude do pai.

to be continued...

19 abril 2008

Dia dos monumentos e sítios - um olhar diferente

Ontem era dia dos monumentos e sítios. Há dois anos, por esta ocasião, lançava um olhar sobre Alcatraz. Este ano fui até o meu sinta10 escolher a estrada Porto Novo-Ribeira Grande. Para mim a obra é um autêntico monumento edificado por dezenas de herois anónimos que, de cordas amarradas à cintura iam escrepando rochas, pondo a vida em risco. Até ainda custa-me entender como esses herois, que não tiveram direito à bustos, conseguiram abrir o Delguédin

12 abril 2008

Bananas (de borla)

A desventura do Paulino em ter pago em Assomada 700 paus para meia dúzia de bananas dá que pensar. Tentando compreender como foi possível chegar à simpática soma, fiz muitos cálculos mas fiquei QO. Então, dei duas voltas à cabeça e fui vasculhar as minhas vivências em Santo Antão, marcadas por uma relação muito próxima com a banana, desde o plantio, a rega, a limpeza, o corte (colheita), o transporte e, claro a devoração do fruto.
Lembrei-me daquelas "impolas" na palma das mãos quando perfurava-mos os buracos para meter as "herdeiras"; dos fusos insuportáveis que vinham dos nabos (caule apodrecido da bananeira) que cortávamos para tapar buzil e interrnôdor no momento da rega (nota-se que horas depois éramos nós a gerar esses fusos - meu irmão David tornou-se especialista nesta "arte"); das picadas insuportáveis das centopeias que quase sempre se encontravam no meio desses nabos; daquela chatice em carregar os cachos, com o receio de ficarmos com a nossa vestimenta pintada de nódoas; dos concursos a ver quem conseguia comer mais bananas em menos tempo...
Pois é, por altura do verão, com o calor as bananeiras produzem mais e as bananas começam a amadurecer mais depressa. Nas hortas encontrávamos cachos maduros, com pardais ta engordá na banana e nós, convivendo com estes pequenos concorrentes na descontra, íamos fazendo as nossas farras.
São muitas as espécies desse fruto: banana anã: vão para São Vicente às carradas e eram aquelas que mais comíamos; banana santoma (de São Tomé): mais cara que a anterior, era para "ramos" e vendas pontuais; banana prata: sobretudo para encomendas; banana macho: para comer frita; banana rôcha: para comer em família, porque rara... Enfim, outras como gigante, inglesa, etc. logo se via o que fazer com cada indana.
Bem não sei que espécie terá o Paulino comido. Se for anã... não sei que zer; se for Prata, talvez a bananas fossem literalmente de prata; se for santoma, talvez por ser muito rara aqui em Santiago; se for macho, talvez cada unidade pesasse um kilograma; se for rôcha, talvez devido à sua beleza. Se forem outras espécies.... heh, tá difícil continuar...
Fotos: banana rôcha de Ribeira da Torre (por BCN)

02 abril 2008

FIGURAS DA ILHA - Ménél Brôco

Os textos do Boltchôr aqui no seu blog me têm feito lembrar algumas peripécias de personagens castiças da ilha. Hoje, lembrei-me do Ménel Bróc, lá de Selada de Ribeirinha de Jorge. Cuitód, el e'mrrê vítima de atropelamento, em circunstâncias muito estranhas e nunca clarificadas (Déus te dél um descónse ne sê alma)
Ménel era Brôc, l'en dava uvi nada, nada, nada, gent tava falá ma el era sô k gesto. Um dia el tava te dtchê ne tchida de Selada e el incontrá dôs mlhêr ne ses conversa. El pará, el cumprimentés e el fcá la pósmód um bquédin. Possód uns moment, el voltá pê ês el dzê, cum ar incmodód:
- "Bem, mim já bé te dtchê, bsot te ne bsot segréd, més log bsot t'uvil lá drriba, bsot e'n de bé dzê quê mim k já léstrél"
Caramba, como seria possível Ménél lastrá quel segréd se el era brôc?!!! Bsot dzê'm

31 março 2008

Saúde p'Antónia d'Aninha

Nha Antónia d'Aninha acaba de dar à estampa o Cd "Boxon", um trabalho que vem resgatar uma das tradições da ilha, infelizmente em queda livre: o "b'tá saude", outrora indispensável em algumas cerimónias, sobretudo casamentos. Com 76 anos, esta mulher é ainda das poucas que existem na ilha e que mantém acesa esta tradição. Nha Da Cruz Naça, lá da Ribeirinha de Jorge, era outro vulto nesta prática, mas infelizmente faleceu há dois anos. Para a posteridade apenas ficaram memórias. Felizmente, no caso de Nha Antónia, há agora este registo para as gerações vindouras! Ó saúd pe Déninha.. oooolélélélééé

27 março 2008

Blog daquel bom

Também estou com aqueles que reconhecem muita dificuldade em fazer a escolha de 2 blogs daquel bom made in CV. Em cada blog CV encontro posts que me interessam bastante, sendo que alguns me prendem.
Entretanto, como forma de fintar a dificuldade, nesta minha escolha guio-me apenas pelo critério da afinidade e parentesco
1 - blog do Paulino - por o considerar uma espécie de prolongamento (mais erudito) do meu sinta10
2 - Bem dzid - mais uma ala (terra terra) da ilha; uma viagem pelos encantos do meu dialecto profundo.

19 março 2008

Coisas boas da vida

Respondendo ao desafio lançado novamente pelo Paulino aqui...

Na madrugada do passado dia 21 de Fevereiro registei estas imagens do eclipse da lua. Era por volta da 01: 45 quando, com três colegas, estava eu deitado no terraço da casa, de olhos para o ceu a captar estas imagens. No meio de um silêncio profundo, só se se ouvia de quanto em vez o latir de um cão que soava fundo. Foi uma experiência indescritível, assistir a uma das maravilhas da Natureza. Enfim, uma das coisas boas da vida, aprentemente insignificante que, só assistindo se poderá sentir quão impressionante é este mundo!!!

18 março 2008

Um vôo para Santo Antão

O incidente que envolveu Jorge Santos e José Maria Neves, por altura da inauguração do Santantão Art Resort terá surgido tendo como pano de fundo a questão do possível novo aeroporto para Santo Antão. A ilha, que já não se recorda da forma de um aviunzin como certo dia escrevemos aqui, em materia de aeroportos por enquanto apenas serve de palco para incidente. Agora, não seria bonito que esse quiproquo fosse ultrapassado no dia da inauguração de um aeroporto em Santo Antão? Estou a imaginar o JMN e o JS no vôo inaugural sentados lado a lado em amena cavaqueira, momentos antes da aterragem do avião:
JMN - "Anton, Tchoriss, bu ta lembra di quel dia qui bu tchoma'n 'mentiroso' li na Porto Novo, precisamenti por causa di aeroporto?
JS - Adé Zemas, inda bo ti te lembrá dess cosa? Aquilo já é passód, moss!! Gora ê so voá...
JMN - bu ten razon! E ..hoji cuzê qui ta sai?
JS - Um groguin lá de Coculi, queijo de Lagoa, pontche de Paúl... ó zemas bo tinha dzid que, pa nôs, Aeroporto não era prioridade, mas hoje e'm te dzê que prioridade é festa, heheheh
OBS: Os dois protagonista não não estão na política activa

12 março 2008

07 março 2008

24 anos de Marcha

Em 1984 nascia em Porto Novo o grupo teatral "Juventude em Marcha". O agrupamento depressa se tornou popular devido à qualidade das suas peças, prenhes de humor, criatividade e muito trabalho de campo.
Hoje, o Juventude em Marcha é sem dúvida um dos grupos teatrais mais populares de Cabo Verde e a isso se deve, em muito, a qualidade dos seus actores, em especial o César Lélis e o Jorge Martins. Ao longo desta caminhada de 24 anos o grupo enfrentou várias dificuldades, mas conseguiu sempre superá-las a ponto de estar hoje "com os pés bem fincados na terra". O carácter popular das suas peças faz com que qualquer espectáculo do grupo esteja repleto de pessoas, o que é sempre uma boa motivação. Aliás o João Branco dizia ontem na RCV que no teatro há um triângulo em que num vértice estão os actores, noutro está a estória e no terceiro o público. E realmente o público tem sido um aliado importantíssimo para o Juventude em Marcha (lembro-me de uma vez quando o grupo veio apresentar "O Preço de um Contrabando" no Auditório Nacional, mais de metade das pessoas que se dirigiram ao local ficaram sem assitir ao espectáculo porque não havia espaço para tanta gente)
Mas o grande bastião do grupo tem sido São Vicente. Não é por acaso que a grande maioria das suas actuações a nível nacional acontecem nessa ilha. O grupo tem sabido retribuir esse carinho e é de se notar que muitas das suas estreias acontecem em Mindelo.
Em comemoração aos 24 anos (as bodas já estão prateadas) o grupo tem agendado para este fim-de-semana duas actuações em Mindelo, com a mais recente peça "Jazigos da Boca de Pistola". Mais uma oportunidade pra malta de Soncent vendê télisca à vontade.